O transtorno de personalidade borderline em relacionamentos românticos com base na CID 11

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Tempo de leitura: 21 minutos

Entenda como o transtorno de personalidade borderline (CID-11, 6D11.5) aparece nos relacionamentos românticos: medo de abandono, splitting, impulsividade e muito mais.

Mulher aflita em moletom cinza, sentada em banco de parque, lendo um livro.

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O transtorno de personalidade borderline (TPB) em relacionamentos românticos é marcado por uma intensidade emocional que poucos conseguem descrever com precisão. (Artigo primeira vez publicado em Terapeuta online Emilson Silva)

A CID-11 classifica esse padrão sob o código 6D11.5 e identifica características como:

  • Medo intenso de abandono;
  • Instabilidade afetiva;
  • Impulsividade e;
  • Perturbação da identidade.

Todas com impacto direto e profundo na forma como a pessoa se relaciona com quem ama.

Cheguei a esse entendimento ao longo de anos de prática clínica com pessoas diagnosticadas com borderline e com parceiros que estavam tentando, muitas vezes no limite das forças, entender o que estava acontecendo dentro do relacionamento.

O que aprendi é que a maioria das pessoas precisa de clareza.

A saída não é simples, mas existe. Ela passa por entender o diagnóstico com precisão, reconhecer os padrões que se repetem, saber o que o parceiro também está sentindo (e buscar suporte profissional adequado).

Neste artigo, você vai encontrar tudo isso organizado de forma direta, sem linguagem complicada e sem romantizar o que é genuinamente difícil.

  1. O que a CID-11 diz de fato sobre o borderline;
  2. Por que o amor no borderline é tão intenso e tão instável ao mesmo tempo;
  3. Como o medo de abandono distorce situações cotidianas do relacionamento;
  4. O que é o splitting e por que ele confunde tanto o parceiro;
  5. Como a impulsividade aparece no dia a dia do casal;
  6. O que a instabilidade de identidade significa na prática para os dois;
  7. Como lidar com crises de automutilação dentro do relacionamento;
  8. Por que o sofrimento do parceiro também precisa ser nomeado;
  9. Se dois relacionamentos com borderline podem funcionar;
  10. O que realmente é necessário para que o amor seja possível e duradouro

O que a CID-11 diz sobre o borderline (6D11.5)

A Classificação Internacional de Doenças, na sua 11ª revisão (CID-11) mudou bastante a forma como entendemos os transtornos de personalidade.

Em vez de categorias rígidas e separadas, ela adota um modelo dimensional.

Isso significa que o diagnóstico considera a gravidade do funcionamento da pessoa, não só um checklist de sintomas isolados.

O transtorno de personalidade borderline aparece na CID-11 com o código 6D11.5.

Ele é classificado como um qualificador de padrão dentro dos transtornos de personalidade.

Na prática, isso quer dizer que a pessoa apresenta características específicas que moldam profundamente como ela se relaciona consigo mesma e com os outros ao redor.

A CID-11 organiza os traços de personalidade em cinco grandes domínios:

  1. Afetividade negativa;
  2. Desapego;
  3. Dissocialidade;
  4. Desinibição e;
  5. Anancasmo.

No borderline, os domínios mais presentes são a afetividade negativa (que inclui instabilidade emocional intensa) e a desinibição, ligada diretamente à impulsividade.

Esses dois eixos juntos criam uma combinação que impacta qualquer relacionamento íntimo de forma muito concreta.

A gravidade do transtorno, segundo a CID-11, varia de leve a severo. Isso importa muito.

Nem todas as pessoas com o padrão borderline vivem da mesma forma ou causam o mesmo impacto nos relacionamentos.

Algumas funcionam bem em diversas áreas da vida. Outras enfrentam dificuldades severas em quase tudo.

Os critérios específicos do padrão borderline na CID-11 incluem:

  • Perturbação marcada da identidade;
  • Instabilidade afetiva intensa;
  • Esforços frenéticos para evitar o abandono real ou imaginado;
  • Comportamentos impulsivos e autodestrutivos, e;
  • Relacionamentos interpessoais intensos e instáveis.

Cada um desses critérios tem um peso diferente dentro de um relacionamento romântico. E é exatamente sobre isso que vamos falar agora.


Por que o amor parece tão intenso e tão doloroso

Tem uma coisa que quase todas as pessoas com borderline relatam sobre o amor: ele não tem meio-termo.

Quando gostam de alguém, é com uma intensidade que assusta.

A CID-11 descreve isso como instabilidade afetiva: oscilações rápidas e intensas do humor que vão muito além do que a situação objetiva justificaria.

Traduzindo para o cotidiano do relacionamento, é aquele parceiro que em um momento está completamente apaixonado e no outro está destruído.

Às vezes na mesma tarde. Sem que nada dramático tenha acontecido no intervalo.

O problema não é a profundidade do sentimento. É a velocidade com que ele muda.

Na prática clínica, o que se observa é que essa intensidade tem dois lados.

  • O lado bonito é que a pessoa com borderline geralmente ama de verdade, com presença e entrega total. Ela faz o parceiro se sentir visto de uma forma que poucos conseguem;
  • O lado devastador é que essa mesma intensidade pode virar fonte de sofrimento constante para os dois porque ele não encontra estabilidade.

O vínculo emocional se forma rápido e vai fundo.

E justamente por isso, qualquer ameaça a esse vínculo (real ou apenas percebida) ativa um nível de alarme desproporcional.


O medo de abandono que distorce tudo

Se existe um elemento central no transtorno de personalidade borderline em relacionamentos românticos, é o medo de abandono.

A CID-11 descreve isso como “esforços frenéticos para evitar abandono real ou imaginado”.

A palavra frenético é importante. Não é uma preocupação leve. É um pavor que domina completamente o comportamento da pessoa em determinados momentos.

Imagine acordar todos os dias com a certeza quase física de que quem você ama vai te deixar.

O parceiro chegou dez minutos atrasado? Provavelmente está perdendo o interesse. Respondeu uma mensagem de forma mais fria? Com certeza está indo embora.

O racional não alcança esse medo.

O abandono, para o borderline, já aconteceu antes mesmo de acontecer.

Esse medo molda comportamentos que confundem muito o parceiro.

A pessoa se torna excessivamente dependente, ligando várias vezes, precisando de confirmação constante, não conseguindo ficar sozinha por períodos curtos.

Ou faz exatamente o oposto: se afasta antes que o outro se afaste, como uma defesa antecipada contra o inevitável.

Ambos são tentativas de controlar o que parece incontrolável.

Na clínica, é comum que parceiros relatem ter se sentido sufocados mas que, ao mesmo tempo, entendiam que havia uma dor enorme por trás desse comportamento.

Essa ambivalência é real. E é fundamental não confundir controle emocional com manipulação intencional.

Na maioria dos casos, não é isso que está acontecendo.

  • Você já sentiu que precisava provar, repetidamente, que não ia embora?
  • Discussões pequenas costumam escalar para crises maiores sobre o futuro do relacionamento?
  • O parceiro reage de forma intensa quando você precisa de espaço ou de um tempo sozinho?
  • Existe uma sensação de que você está sempre “apagando incêndio” emocional?
  • Há momentos em que a pessoa com borderline parece se afastar de você antes mesmo que qualquer problema apareça?

Splitting: quando você é perfeito hoje e terrível amanhã

Splitting é um dos conceitos mais importantes para entender o transtorno de personalidade borderline em relacionamentos românticos.

O termo técnico é clivagem, e a CID-11 relaciona isso à perturbação da identidade e à instabilidade nos relacionamentos interpessoais.

Na vida real, o que isso parece é o seguinte: a mesma pessoa que ontem era tudo para você hoje é tratada como inimiga declarada.

O mecanismo funciona assim: o cérebro da pessoa com borderline tem dificuldade em integrar informações contraditórias sobre alguém.

Ou você é bom, ou você é mau. Ou o relacionamento é perfeito, ou é uma catástrofe total. Não existe zona cinza acessível.

Isso não é escolha consciente e não é teatro emocional. É uma forma de processamento cognitivo que se desenvolveu como defesa diante de experiências emocionais muito intensas, geralmente desde cedo na vida.

Para o borderline, ambivalência não é confortável. É insuportável.

Para o parceiro, isso é completamente desorientante. Você acorda sendo o amor da vida dela e vai dormir sendo a pior pessoa que ela já conheceu.

Sem ter feito nada radicalmente diferente entre um momento e outro.

Esse ciclo de idealização e desvalorização é exaustivo e cria no parceiro uma sensação permanente de pisar em ovos, de nunca saber ao certo em que pé está.

Na prática, o splitting se manifesta de formas variadas.

  • Às vezes é verbal: uma mudança abrupta no tom, na linguagem, nas coisas que a pessoa diz sobre você;
  • Às vezes é comportamental: frieza repentina, ausência, isolamento sem explicação.

O parceiro aprende a identificar quando a mudança está chegando, mas raramente consegue evitá-la, porque o gatilho muitas vezes é invisível para quem está de fora.


Impulsividade e seus rastros no relacionamento

A impulsividade é outro elemento central descrito pela CID-11 no padrão borderline.

E ela não aparece apenas nas grandes decisões.

Aparece no dia a dia do relacionamento de formas que confundem e assustam:

  • Uma compra que compromete o orçamento do casal;
  • Um término abrupto seguido de arrependimento imediato;
  • Uma traição que aconteceu “sem que a pessoa entendesse como” e que ela própria lamenta profundamente depois.

A CID-11 enquadra isso no domínio da desinibição: dificuldade de modular a resposta a impulsos, mesmo quando as consequências são previsíveis e indesejadas.

O ponto essencial aqui é que essa impulsividade quase sempre está ligada a um estado emocional intenso.

A pessoa não age assim quando está calma. Age quando está sobrecarregada emocionalmente e precisando de alívio imediato, de qualquer forma que apareça.

Para o relacionamento, isso cria um padrão imprevisível que desgasta a confiança ao longo do tempo.

O parceiro nunca sabe exatamente o que acontecerá em momentos de crise. E essa incerteza gera um estado de hipervigilância que, por si só, já é esgotante.

É importante não confundir impulsividade com irresponsabilidade crônica ou falta de caráter. São coisas diferentes.

A impulsividade no borderline tem origem neurobiológica e é amplificada por estados emocionais extremos.

Com tratamento adequado, especialmente a Terapia Comportamental Dialética, a DBT é um dos aspectos que mais responde à intervenção.


Identidade instável: quem é essa pessoa com quem eu me relaciono?

A CID-11 inclui a perturbação da identidade como critério central do padrão borderline.

Isso significa uma instabilidade no sentido de quem a pessoa é: seus valores, suas preferências, seus objetivos, sua visão de si mesma ao longo do tempo.

Essa instabilidade é uma experiência genuinamente perturbadora de não saber ao certo quem você é, e de carregar isso todos os dias.

Nos relacionamentos românticos, a pessoa muda de opinião sobre coisas fundamentais várias vezes em períodos curtos.

O que ela quer da vida, o que acha certo ou errado, o tipo de relação que deseja, tudo oscila. E o parceiro fica sem saber exatamente com quem está se comprometendo de verdade.

Amar alguém que não se conhece é, ao mesmo tempo, ato de coragem e fonte de esgotamento.

O que a pessoa com borderline vive internamenteO que o parceiro observa no relacionamento
Sensação de vazio interno constanteParceiro nunca parece ser suficiente para preencher a pessoa
Incerteza sobre o que quer da vidaPlanos do casal mudam com frequência sem explicação clara
Valores e crenças que oscilamDiscussões sobre temas antes resolvidos reaparecem do nada
Dificuldade de se ver como pessoa coerente ao longo do tempoComportamentos que contradizem o que foi dito antes
Necessidade de espelhar o outro para se sentir inteiroParceiro sente que a pessoa “se transforma” dependendo de com quem está

Esse vazio interno que a CID-11 é uma sensação que vai além de tristeza ou tédio.

É como se existisse um buraco no centro da experiência de si mesmo, e o relacionamento romântico frequentemente se torna a tentativa de tampar esse buraco.

Isso coloca uma pressão injusta e insustentável em cima do parceiro, que não tem como ser a única fonte de identidade e sentido para outra pessoa.

O parceiro não deve ser a âncora de identidade de ninguém. Isso vale em qualquer relacionamento.


Automutilação e crise suicida dentro do relacionamento

A CID-11 inclui comportamentos autodestrutivos recorrentes, como automutilação e ameaças ou tentativas de suicídio, como parte do padrão borderline.

Esses comportamentos geralmente não têm como objetivo principal a morte.

Funcionam como uma tentativa de regular uma dor emocional que, naquele momento, parece fisicamente insuportável.

Para entender isso sem julgamento: imagine que sua capacidade de tolerar dor emocional é como um copo. A maioria das pessoas tem um copo grande.

A pessoa com borderline, por razões neurobiológicas e muitas vezes também por histórico de trauma, tem um copo muito menor.

Ele transborda mais rápido, com menos volume.

E quando transborda, o comportamento autodestrutivo surge como o único alívio disponível. Doloroso, mas real e imediato.

A autolesão é um pedido de socorro com as palavras erradas.

Para o parceiro, presenciar ou descobrir isso é devastador. Cria uma mistura de pavor, culpa, raiva e desamparo que é difícil de nomear.

É comum que o parceiro passe a se sentir responsável pelo estado emocional da pessoa com borderline, monitorando comportamentos, evitando qualquer conflito, se anulando para “não disparar” uma crise.

Com o tempo, esse papel de cuidador permanente gera um esgotamento profundo que poucos conseguem sustentar.

  • Não minimize: leve a sério qualquer menção a autolesão ou suicídio;
  • Evite ultimatos: frases como “se você fizer isso de novo, eu vou embora” ativam o terror de abandono e intensificam a crise.
  • Não assuma a responsabilidade: você não é terapeuta do parceiro. Seu papel é apoiar, não de curar sozinho.
  • Busque ajuda especializada: isso não é algo para ser gerenciado dentro do relacionamento sem suporte profissional. A terapia para os dois não é opcional nesse contexto.
  • Em situação de risco imediato: ligue para o CVV no 188 ou acione o SAMU no 192.

Nenhuma relação sobrevive quando um dos dois está completamente esgotado tentando salvar o outro.


O que o parceiro sente?

Muito do que se escreve sobre borderline foca na pessoa diagnosticada. Faz sentido, ela está sofrendo.

Mas existe um sofrimento paralelo que também precisa ser nomeado com cuidado: o do parceiro.

Que muitas vezes não sabe se o que sente é válido. Que se culpa por estar cansado. Que ama genuinamente, mas não consegue mais sustentar o que era antes.

É comum que parceiros de pessoas com borderline relatem uma sensação permanente de confusão:

  • “Eu amo essa pessoa, mas estou destruído.”;
  • “Ela não faz isso de propósito, mas eu não aguento mais.”;
  • “Se eu for embora, vou me sentir culpado pelo resto da vida.”

Existe um risco importante aqui que precisa ser dito com clareza: a narrativa de que o parceiro de alguém com borderline é automaticamente uma vítima, ou automaticamente um cúmplice, é simplista e perigosa.

Relacionamentos são sistemas. O que importa é entender o que está acontecendo na dinâmica e o que cada pessoa deve fazer, de forma honesta e realista, diante disso.

Se você está num relacionamento com alguém com borderline e está se sentindo esgotado, confuso ou culpado por estar cansado, recomendo fortemente a leitura do artigo com dicas para namorar alguém com borderline.

Há orientações práticas que mudarão a forma como você entende e lida com essa dinâmica no dia a dia.


Duas pessoas com borderline podem se relacionar?

Essa é uma das perguntas que mais aparecem na clínica. E a resposta honesta é: depende.

Dois relacionamentos com a mesma composição tem desfechos completamente diferentes dependendo:

  • Do nível de consciência de cada pessoa sobre o próprio transtorno;
  • Do estágio do tratamento em que cada um está e;
  • Da disposição real de ambos para trabalhar ativamente na dinâmica .

O que a pesquisa e a experiência clínica mostram é que quando duas pessoas com borderline se relacionam, alguns padrões tendem a se amplificar.

  • O splitting cria ciclos rápidos de idealização e desvalorização mútua;
  • O medo de abandono gera uma dinâmica de fusão intensa e sufocante;
  • A impulsividade dos dois juntos escala conflitos de forma acelerada, em espirais difíceis de interromper sem intervenção externa.

Por outro lado, existe algo que só duas pessoas com a mesma experiência conseguem oferecer uma à outra: compreensão genuína.

Ser visto e reconhecido por alguém que sabe exatamente como é viver assim por dentro, sem precisar traduzir nada.

Escrevi um artigo mais detalhado sobre esse tema específico, com uma análise honesta das possibilidades e dos riscos envolvidos: duas pessoas com borderline podem se dar bem.

Vale a leitura completa se você ou seu parceiro se identificam com o transtorno.


O amor é possível, mas exige mais estrutura

Aqui vem a parte que muita gente espera, e que também é a mais honesta.

Sim, é possível ter um relacionamento romântico saudável e significativo quando um ou ambos os parceiros têm borderline.

Mas isso não acontece por acaso, por força de vontade ou só porque o amor é grande.

Acontece com tratamento consistente, psicoeducação real e disposição genuína de trabalhar o que é difícil.

A abordagem com maior evidência científica para o borderline é a Terapia Comportamental Dialética, a DBT, desenvolvida pela psicóloga Marsha Linehan.

Ela trabalha diretamente com regulação emocional, tolerância ao mal-estar, efetividade interpessoal e atenção plena.

Os resultados em quem se engaja de verdade no processo são significativos.

A psicoeducação do casal também é fundamental nesse processo.

Quando o parceiro entende o que é o borderline de verdade, ele consegue responder de forma mais eficaz nas crises.

Deixa de levar tudo para o lado pessoal. Começa a ver o padrão em vez de só reagir ao episódio. Essa mudança de perspectiva muda tudo na prática.

E sobre ser amado por alguém com borderline: esse amor é real, é possível e tem uma intensidade que poucas experiências emocionais conseguem alcançar.

Se você quer entender como esse amor se manifesta na prática cotidiana, recomendo dois artigos que escrevi especificamente sobre isso: os 6 maiores sinais de que um borderline ama você e você pode ser amado por alguém com borderline.

O que não funciona é a fantasia de que o amor sozinho resolve.

Relacionamentos com pessoas com borderline exigem mais do que boa intenção. Exigem limites claros, comunicação honesta, terapia individual para os dois e, na maioria dos casos, terapia de casal também.


E agora, o que fazer?

Se você chegou até aqui, provavelmente está vivendo algo que vai além de uma leitura casual.

Seja você a pessoa com borderline tentando entender a si mesma, ou o parceiro que está exausto e sem saber o que fazer, esse é o tipo de situação que se beneficia muito de acompanhamento especializado e individualizado.

Trabalho com terapia online e tenho experiência clínica no atendimento a pessoas com transtornos de personalidade e a parceiros que estão tentando navegar nessas dinâmicas.

Se quiser conversar sobre como posso ajudar no seu caso específico, agende uma consulta pelo botão abaixo.


Perguntas frequentes

  1. O que é o transtorno de personalidade borderline segundo a CID-11?
    É um padrão de personalidade classificado sob o código 6D11.5, caracterizado por instabilidade afetiva intensa, medo de abandono, perturbação da identidade, impulsividade e relacionamentos interpessoais instáveis. A CID-11 o organiza dentro de um modelo dimensional, considerando tanto o padrão quanto a gravidade do funcionamento da pessoa.
  2. O borderline afeta todos os relacionamentos românticos da mesma forma?
    Não. A intensidade dos impactos varia conforme a gravidade do transtorno, o histórico da pessoa, o estágio do tratamento e a dinâmica específica do casal. Algumas pessoas com borderline mantêm relacionamentos relativamente estáveis. Outras enfrentam dificuldades severas. Generalizar é um erro que prejudica o entendimento real da situação.
  3. Pessoa com borderline é capaz de amar de verdade?
    Sim, e com uma intensidade que poucos conseguem igualar. O borderline não elimina a capacidade de amar, ele torna esse amor mais instável e mais dependente de regulação emocional. A dificuldade está na expressão e na sustentação do vínculo, não na ausência de sentimento genuíno.
  4. Por que a pessoa com borderline alterna entre me amar e me odiar?
    Esse fenômeno se chama splitting, ou clivagem. É uma dificuldade de integrar aspectos contraditórios de uma mesma pessoa. O cérebro oscila entre ver o parceiro como completamente bom ou completamente mau, sem zona cinza acessível.
  5. O medo de abandono no borderline é exagero?
    Não. É uma experiência genuinamente aterrorizante, com base neurobiológica e frequentemente ligada a experiências precoces de perda ou rejeição. A CID-11 descreve isso como esforços frenéticos para evitar abandono real ou imaginado. O que parece desproporcional por fora é, por dentro, absolutamente real para quem vive.
  6. Como identificar se meu parceiro tem borderline?
    Diagnóstico é responsabilidade exclusiva de um profissional de saúde mental qualificado. O que você deve observar são padrões: instabilidade emocional intensa, oscilações rápidas entre idealização e desvalorização, medo excessivo de abandono e impulsividade recorrente.
  7. O relacionamento com uma pessoa borderline tem solução?
    Tem, mas exige estrutura. Tratamento consistente, psicoeducação do casal, limites claros e, na maioria dos casos, acompanhamento terapêutico para os dois. Não é uma questão de boa vontade apenas. É construção ativa, com suporte profissional, ao longo do tempo.
  8. O que é a DBT e por que ela é indicada para o borderline?
    A Terapia Comportamental Dialética, desenvolvida por Marsha Linehan, é a abordagem com maior evidência científica para o tratamento do borderline. Trabalha regulação emocional, tolerância ao mal-estar, efetividade interpessoal e atenção plena. Exatamente as áreas mais comprometidas no transtorno. É considerada o padrão-ouro no tratamento do BPD pela literatura científica atual.
  9. Como devo reagir quando meu parceiro com borderline entra em crise?
    Mantenha a calma sem minimizar o que a pessoa sente. Valide a emoção sem validar comportamentos destrutivos. Evite ultimatos e confrontos diretos no pico da crise. Se houver risco real de autolesão ou suicídio, acione ajuda profissional imediatamente, CVV no 188 ou SAMU no 192.
  10. Parceiro de pessoa com borderline também precisa de terapia?
    Sim, e com frequência isso é subestimado. Estar num relacionamento com dinâmicas intensas e imprevisíveis cobra um preço emocional real. Terapia individual ajuda o parceiro a processar o que está vivendo, estabelecer limites saudáveis e tomar decisões mais conscientes sobre o relacionamento sem culpa paralisante.
  11. Duas pessoas com borderline podem ter um relacionamento saudável?
    É possível, mas exige ainda mais estrutura e consciência de ambos. Quando os dois estão em tratamento e têm clareza sobre seus padrões, o relacionamento funciona até com vantagens únicas, como compreensão mútua profunda. Sem esse suporte, os padrões tendem a se amplificar e os conflitos a escalar mais rapidamente.
  12. A automutilação no borderline é tentativa de manipulação?
    Na maioria dos casos, não. A autolesão funciona como mecanismo de regulação emocional, uma tentativa de aliviar uma dor psíquica que, naquele momento, parece fisicamente insuportável. Interpretar como manipulação é um erro que impede a compreensão real do que está acontecendo e pode piorar a crise significativamente.
  13. O borderline tem cura?
    A CID-11 e a literatura científica atual indicam que o borderline não tem “cura” no sentido de desaparecimento completo dos traços. Mas com tratamento adequado, especialmente DBT, a maioria das pessoas apresenta melhora significativa e sustentada. Muitas chegam a um funcionamento que não preenche mais os critérios diagnósticos ao longo do tempo. Processo longo, real e possível.
  14. Como conversar com meu parceiro sobre o diagnóstico de borderline?
    Com honestidade e sem julgamento. Escolha um momento de calma, não durante ou logo após uma crise. Foque no que você observa e sente, não em rótulos ou acusações. Se possível, faça isso com suporte de um terapeuta (individual ou de casal) que possa mediar a conversa e dar contexto clínico ao diagnóstico.
  15. É possível estabelecer limites num relacionamento com alguém com borderline?
    Sim, e é fundamental. Para a pessoa com borderline, limites bem colocados reduzem a ansiedade, porque criam previsibilidade. O desafio está em comunicá-los com firmeza e calma, sem punição e sem ceder toda vez que houver resistência emocional intensa.

Referências

  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Internacional de Doenças para Estatísticas de Mortalidade e Morbidade. 11. ed. Genebra: OMS, 2022. Disponível em: https://icd.who.int. Acesso em: abr. 2025.
  • LINEHAN, Marsha M. Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder. New York: Guilford Press, 1993.
  • KERNBERG, Otto F. Borderline Conditions and Pathological Narcissism. New York: Jason Aronson, 1975.
  • BATEMAN, Anthony; FONAGY, Peter. Psychotherapy for Borderline Personality Disorder: Mentalization-Based Treatment. Oxford: Oxford University Press, 2004.