A CID-11 (11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças) entrou em vigor em janeiro de 2022 e mudou radicalmente como profissionais de saúde mental documentam, comunicam e justificam seus diagnósticos no Brasil. (Artigo primeira vez publicado em Terapeuta online Emilson Silva)
Se você ainda usa tabelas da CID-10, precisa entender o que mudou antes que isso traga consequências jurídicas ou clínicas reais para o seu trabalho.
A CID-10 foi publicada pela Organização Mundial da Saúde em 1993 e funcionou como referência mundial por quase três décadas.
Mas o mundo mudou, a ciência avançou, e os critérios diagnósticos foram revisados tantas vezes que a versão impressa virou um obstáculo.
A CID-11 nasce digital, interativa e pensada para operar em sistemas eletrônicos de saúde, uma diferença de arquitetura, não apenas de conteúdo.
Códigos antigos foram extintos, categorias foram reorganizadas e novos diagnósticos entraram em cena, com impacto direto na prática da psicologia e da psiquiatria clínica.
A estrutura da CID-11: o que mudou?
Se você esperava encontrar uma lista organizada como a CID-10, com aqueles códigos começando em F para saúde mental, tipo F32 para depressão ou F84.0 para autismo, vai se deparar com algo bastante diferente.
Entendendo os novos códigos alfanuméricos
Os códigos da CID-11 seguem um formato alfanumérico diferente do padrão da CID-10.
Em vez de “letra + dois números” (como F32.0), agora temos uma estrutura do tipo “número + letra + número + número”, como 6A70 para episódio depressivo ou 6A02 para Transtorno do espectro autista.
Parece só uma mudança visual, mas há uma lógica estrutural por trás.
Cada bloco de capítulo da CID-11 representa um sistema ou domínio orgânico.
Os transtornos mentais, do comportamento e do desenvolvimento neurológico estão no Capítulo 06, e por isso todos os seus códigos começam com o numeral 6.
Isso facilita a navegação digital, a integração com prontuários eletrônicos e a busca por nome ou código no navegador da OMS.
Para você visualizar as correspondências mais comuns na prática clínica:
| CID-10 | CID-11 | Diagnóstico |
|---|---|---|
| F32 | 6A70 | Episódio depressivo (apresentação única) |
| F33 | 6A71 | Transtorno depressivo recorrente |
| F84.0 | 6A02 | Transtorno do espectro autista |
| F84.5 | 6A02 + qualificadores | Asperger, agora dentro do TEA |
| F43.1 | 6B40 | Transtorno de estresse pós-traumático |
| — | 6B41 | TEPT Complexo (diagnóstico novo) |
| Z73.0 | QD85 | Burnout (fenômeno ocupacional) |
| F60.x (10 categorias) | 6D10 / 6D11 / 6D12 | Transtornos de personalidade, modelo dimensional |
O diferencial técnico da CID-11
Na CID-10, o diagnóstico era um código único e fechado. Na CID-11, você pode combinar um código-base (chamado de stem code) com extensões que adicionam especificidade clínica ao registro.
Por exemplo: um diagnóstico de episódio depressivo grave com sintomas psicóticos não vai ser simplesmente “6A70”.
Você vai usar o stem code e adicionar extensões que indicam a gravidade (leve, moderada, grave), a presença ou ausência de sintomas psicóticos, o padrão de curso (único ou recorrente) e outras informações relevantes.
O resultado é um código composto que carrega muito mais informação clínica do que qualquer código da CID-10 já carregou.
Isso é tecnicamente poderoso. Mas exige que o profissional entenda a lógica antes de aplicar.
Copiar e colar um código sem entender o que ele representa (ou usar um código incompleto quando a especificidade estava disponível) enfraquece laudos e cria vulnerabilidade jurídica desnecessária.
A ferramenta é boa; o risco está no uso automático.
Como usar o navegador oficial da OMS
A OMS disponibiliza o navegador da CID-11 gratuitamente em https://icd.who.int/browse/2026-01/mms/en.
A interface principal está em inglês, mas há suporte para múltiplos idiomas em desenvolvimento.
Para profissionais brasileiros, o navegador já permite pesquisa por nome do diagnóstico e retorna as notas clínicas, critérios de inclusão e exclusão em inglês, suficiente para quem tem familiaridade básica com terminologia clínica internacional.
Para usar de forma eficiente:
- Acesse o site e use a barra de pesquisa pelo nome do diagnóstico;
- Leia as inclusions e exclusions antes de registrar o código. Elas evitam erros comuns;
- Verifique as notes clínicas associadas ao código, especialmente em diagnósticos com múltiplos qualificadores;
- Use a função de codificação pós-coordenada para especificar gravidade, curso e outros modificadores relevantes;
- Guarde os códigos que você usa com mais frequência. A curva de aprendizado é rápida após as primeiras consultas
Qualquer profissional que acostumou com a CID-10 sabe que o hábito se forma rápido e que trabalhar sem consultar a fonte primária é o atalho que mais cria problemas a longo prazo.
Principais mudanças na saúde mental
A CID-11 trouxe mudanças significativas no campo da saúde mental.
Algumas eram esperadas pela comunidade científica há anos. Outras mudaram de forma direta como diagnósticos precisam ser comunicados e documentados.
Transtorno do espectro autista (TEA)
Na CID-10, o espectro autista estava fragmentado em várias categorias distintas:
- Autismo infantil (F84.0);
- Síndrome de Asperger (F84.5);
- Transtorno desintegrativo da infância (F84.3);
- Tanstorno global do desenvolvimento sem outra especificação (F84.9), entre outros.
Cada categoria tinha critérios próprios e, na prática clínica, causava confusão real sobre qual código aplicar, especialmente em casos limítrofes.
A CID-11 unificou tudo sob um único código: 6A02 (Transtorno do Espectro Autista).
Isso reflete o que a neurociência e a psicologia clínica vinham demonstrando há pelo menos uma década: as diferenças entre essas categorias eram mais de grau do que de natureza.
O diagnóstico agora é dimensional e usa dois eixos de qualificação obrigatórios:
- O nível de linguagem funcional (ausente, funcional mínima, funcional) e;
- A presença ou ausência de comprometimento intelectual associado.
Essa combinação de qualificadores substitui o que antes eram categorias separadas e permite um registro mais preciso do perfil funcional da pessoa.
O impacto prático é direto e imediato.
Laudos antigos com diagnóstico de síndrome de Asperger (F84.5) não perdem validade retroativamente. Mas novos laudos precisam usar o código 6A02 com os qualificadores corretos.
Os profissionais que continuam usando “Asperger” como categoria autônoma e independente em documentos clínicos baseados na CID-11 estão em desacordo com a classificação vigente.
Transtorno de estresse pós-traumático complexo (TEPT-C)
Esta é, provavelmente, a mudança de maior impacto para a prática clínica em psicologia.
O Transtorno de estresse pós-traumático complexo, código 6B41, não existia na CID-10 como entidade diagnóstica separada.
Era tratado dentro do TEPT geral (F43.1) ou, mais frequentemente, confundido com transtornos de personalidade, especialmente o transtorno de personalidade borderline.
O TEPT-C se distingue do TEPT convencional (agora 6B40) por um conjunto adicional de características que refletem exposição traumática prolongada, repetida e interpessoal, como:
- Violência doméstica crônica;
- Abuso físico ou sexual na infância;
- Tortura ou;
- Confinamento prolongado.
Além dos sintomas clássicos do TEPT (reexperiência, evitação, hipervigilância), o TEPT-C inclui três domínios adicionais que formam o que a CID-11 chama de “perturbações na organização do self”:
- Desregulação afetiva persistente;
- Alterações negativas persistentes no senso de self (vergonha, culpa, sentimento de estar arrasado) e;
- Dificuldades persistentes nos relacionamentos interpessoais.
Por que isso importa clinicamente? Porque o tratamento difere de forma significativa.
Alguém com TEPT-C tende a responder de forma diferente (e muitas vezes com menos eficácia inicial) a intervenções desenhadas para TEPT simples, como a EMDR ou a terapia de exposição prolongada sem preparação adequada.
O reconhecimento correto do diagnóstico orienta a escolha da abordagem, o ritmo da intervenção e as expectativas sobre o processo.
A CID-11 finalmente oferece um código que nomeia com precisão o que muitos profissionais experientes já observavam, mas não conseguiam registrar de forma padronizada.
Documentar TEPT-C em vez de TEPT faz diferença concreta na autorização de tratamentos por planos de saúde e na comunicação com psiquiatras e outros membros da equipe de cuidado.
Burnout
O Burnout ganhou espaço midiático imenso nos últimos anos e, junto com isso, muita confusão clínica.
A CID-11 esclarece de uma vez por todas: Burnout (código QD85) não é um transtorno mental.
Ele está classificado no Capítulo 24: Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com os serviços de saúde, como um fenômeno ocupacional, não como uma condição clínica autônoma.
O que isso significa na prática? Que o Burnout não deve ser o diagnóstico primário em um laudo psicológico.
Ele deve aparecer como código complementar, contextualizando o quadro do paciente, mas o diagnóstico clínico principal precisa ser outro.
Geralmente, trata-se de um transtorno depressivo (6A70 ou 6A71), transtorno ansioso (6B00 a 6B08) ou transtorno de ajustamento (6B43).
Em alta entre os leitores:
- Se você confessar um crime para seu psicólogo, ele vai te denunciar?
- Você deve contar tudo ao seu Psicólogo?
- Por que psicólogos têm tanto problema em diagnosticar pacientes?
- O que o Psicólogo anota durante a sessão de terapia?
- É saudável seguir psicólogos e terapeutas nas redes sociais como fonte de conselhos?
Com a CID-11, a posição da OMS está explícita: o Burnout descreve um contexto de adoecimento relacionado ao trabalho, não uma doença.
Transtorno de jogo (gaming disorder)
O Gaming disorder (código 6C51) foi incluído na CID-11 após anos de debate acalorado na comunidade científica internacional.
Há pesquisadores que ainda questionam a robustez das evidências.
Mas a inclusão oficial significa que existe agora uma linguagem diagnóstica padronizada para comunicar esse quadro.
O diagnóstico exige três condições simultâneas:
- Padrão de comportamento de jogar com perda de controle;
- Prioridade crescente dos jogos sobre outras atividades da vida e;
- Continuação ou escalada do comportamento apesar das consequências negativas.
Além disso, o padrão precisa ser suficientemente grave para causar comprometimento significativo em áreas pessoal, familiar, social, educacional ou profissional e deve estar presente por pelo menos 12 meses.
Jogar muito não é um diagnóstico. Os critérios são específicos e exigentes.
A inclusão existe porque a ausência de um código diagnóstico formal dificultava o acesso ao tratamento em muitos países e porque a evidência científica disponível, embora ainda em desenvolvimento, justificou a decisão da OMS.
Transtornos de personalidade
Esta é, tecnicamente, a mudança mais profunda em psicopatologia que a CID-11 introduziu.
A CID-10 tinha várias categorias específicas de transtorno de personalidade:
- Paranoide (F60.0);
- Esquizoide (F60.1);
- Antissocial (F60.2);
- Borderline ou emocionalmente instável (F60.3);
- Histriónico (F60.4);
- Anancástico (F60.5);
- Ansioso/evitativo (F60.6);
- Dependente (F60.7), entre outros.
A CID-11 aboliu praticamente todas essas categorias como entidades independentes.
O novo modelo é dimensional. Em vez de perguntar “é borderline ou narcisista?”, o profissional agora avalia primeiro a gravidade do transtorno de personalidade:
- Leve (6D10);
- Moderado (6D11) ou;
- Grave (6D12).
Depois adiciona qualificadores de traço predominante que descrevem o perfil clínico.
Os domínios de traço disponíveis na CID-11 são:
- Negatividade afetiva;
- Distanciamento;
- Dissocialidade;
- Desinibição e;
- Anancástia (rigidez/perfeccionismo).
Existe ainda um especificador para padrão borderline, como ressalva às categorias completamente extintas.
Na prática clínica, esse modelo é mais fiel à realidade que se encontra no consultório.
Pacientes raramente se encaixam de forma limpa em uma única categoria de personalidade.
O modelo dimensional permite descrever a complexidade do funcionamento sem forçar um encaixe artificial que frequentemente distorce o quadro e orienta mal o tratamento.
- Você se reconhece nessa dificuldade de “encaixar” um paciente em uma categoria?
- Já se viu escolhendo entre dois códigos de personalidade sem certeza de qual era o mais correto?
- O modelo dimensional da CID-11 talvez nomeie exatamente o que você já observava, mas não conseguia registrar com precisão.
A CID-11 no contexto clínico brasileiro
Saber que a CID-11 existe e funcionar de acordo com ela no Brasil são coisas diferentes.
Quando ela passou a valer no Brasil?
A CID-11 foi adotada oficialmente pelos países-membros da OMS durante a 72ª Assembleia Mundial da Saúde, em 2019, e entrou em vigor internacionalmente em 1º de janeiro de 2022.
O Brasil, como membro da OMS, está comprometido com essa transição. Mas comprometimento institucional e implementação operacional são coisas diferentes.
O DATASUS (sistema de informações em saúde utilizado pelo SUS) ainda opera com a CID-10 em várias de suas plataformas.
Isso cria uma situação ambígua para o profissional que quer trabalhar com a versão mais atual.
O Ministério da Saúde tem conduzido discussões sobre o calendário de transição, mas até o momento da publicação deste artigo não havia uma data de corte definitiva para a substituição completa da CID-10 no âmbito do SUS.
O CFP (Conselho Federal de Psicologia) e o CFM (Conselho Federal de Medicina) não emitiram uma resolução específica determinando prazo obrigatório para uso exclusivo da CID-11 em documentos clínicos.
Mas isso não significa que continuar com a CID-10 seja uma escolha neutra, especialmente porque operadoras de saúde privadas já estão em estágios diferentes de adaptação.
A recomendação prática para o profissional brasileiro hoje é: verificar com cada operadora qual versão de código está sendo aceita para faturamento e autorização.
Quando houver ambiguidade, incluir ambos os códigos no documento, com nota explicativa clara sobre a correspondência entre as versões.
Uso em prontuários e laudos
Um laudo psicológico tem função clínica e jurídica simultaneamente.
Quando o código diagnóstico está incorreto, desatualizado ou incompatível com a descrição clínica do documento, o laudo pode ser invalidado pelo convênio ou ter sua validade questionada em contextos periciais, judiciais ou de revisão por órgãos reguladores.
Para estruturar documentos tecnicamente seguros com a CID-11:
- Especifique sempre a versão da classificação utilizada no cabeçalho do laudo: por exemplo, “Diagnóstico conforme CID-11 (OMS, 2022)”;
- Use o código completo, incluindo os qualificadores de gravidade e curso quando disponíveis para o diagnóstico em questão;
- Mantenha coerência obrigatória entre o código registrado e a descrição clínica desenvolvida ao longo do laudo;
- Evite tabelas de conversão automática CID-10/CID-11 sem verificar clinicamente o resultado. A correspondência nem sempre é direta
- Quando o sistema receptor ainda exige CID-10 (como alguns módulos do DATASUS), inclua o código da CID-10 com uma nota explicando a equivalência aproximada à CID-11
- Registre o instrumento de avaliação utilizado quando o diagnóstico foi fundamentado por testagem psicológica
Um detalhe que muitos profissionais subestimam: a falta de especificidade.
Usar um código genérico quando um mais específico estava disponível na CID-11 pode ser interpretada como negligência técnica em contextos de disputa jurídica ou perícia.
O nível de detalhe disponível na CID-11 é um recurso, não uma complicação. Não usá-lo enfraquece o documento.
Sigilo profissional versus CID
O Código de Ética Profissional do Psicólogo garante o sigilo das informações obtidas no exercício profissional.
Mas, ao emitir um laudo com código diagnóstico para um convênio de saúde, o profissional está necessariamente compartilhando uma informação clínica com um terceiro.
A questão não é se isso pode ser feito. Em geral, pode, quando há consentimento explícito do paciente e justificativa legítima.
A questão é como o profissional conduz esse processo com o paciente antes de emitir o documento.
O psicólogo tem obrigação ética de informar ao paciente quais informações serão compartilhadas, com quem e para qual finalidade.
Isso inclui:
- Explicar de forma acessível o que o código diagnóstico registrado significa;
- Quais são as implicações de ter esse registro em um documento que vai circular fora do espaço clínico e;
- Que tipo de proteção o paciente tem sobre essa informação.
Quando o paciente é menor de idade, está em situação de vulnerabilidade significativa ou quando o laudo vai para contextos com alto impacto (perícia judicial, benefícios do INSS, processos trabalhistas), o cuidado precisa ser proporcional ao risco.
Como profissionais habilitados devem utilizar a CID-11
A CID-11 é uma linguagem comum para nomear e comunicar quadros clínicos entre profissionais e sistemas de saúde.
Raciocínio clínico
Um equívoco comum é usar a CID-11 como ponto de partida do raciocínio diagnóstico.
Chega o paciente, surge uma hipótese, busca-se o código e confirma-se. Esse processo funciona ao contrário do que deveria.
O diagnóstico começa na escuta qualificada.
A CID-11 entra no final, para nomear com precisão o que você já avaliou e documentar de forma padronizada.
Tratar o código como um rótulo a priori (que direciona a escuta em vez de ser por ela fundamentado) compromete a qualidade clínica e pode levar o tratamento por um caminho equivocado.
O código não substitui o raciocínio. É uma consequência dele.
Isso também significa que o diagnóstico registrado na CID-11 pode e deve mudar ao longo do tratamento, à medida que o quadro do paciente se revela com mais profundidade.
Uma pessoa que chega com um episódio depressivo grave (6A70.2) e, na evolução do processo, manifesta características que correspondem a TEPT-C (6B41) vai ter seus códigos revisados.
O modelo dimensional dos transtornos de personalidade é um bom exemplo dessa lógica.
Em vez de fixar um rótulo categórico que não evolui junto com o paciente, o profissional avalia periodicamente a gravidade do comprometimento e o perfil de traços predominantes e documenta as mudanças.
Isso é mais trabalhoso? Sim. É também mais fiel à realidade clínica e mais defensável eticamente.
Entrevista diagnóstica
A reorganização de categorias e critérios na CID-11 exige que a anamnese seja revisada.
Usar roteiros de entrevista calibrados exclusivamente para a CID-10 resulta em subdiagnóstico, sobrediagnóstico ou diagnóstico incorreto.
Pontos práticos para adaptar a entrevista clínica:
- Para TEA
Avalie explicitamente as duas dimensões de qualificação (nível de linguagem funcional e presença de comprometimento intelectual associado) para usar o código 6A02 corretamente. A ausência de linguagem funcional não é o mesmo que comprometimento intelectual. - Para TEPT e TEPT-C
Investigue ativamente se há história de trauma prolongado e repetido de natureza interpessoal, características dissociativas persistentes e perturbações no senso de self antes de definir se o quadro é 6B40 ou 6B41. A distinção tem implicações diretas no planejamento terapêutico. - Para transtornos de personalidade
Avalie primeiro a gravidade do comprometimento do funcionamento interpessoal e do senso de self antes de adicionar qualificadores de traço. O nível de gravidade (leve, moderado, grave) é o eixo primário, não o perfil de traço. - Para episódios depressivos: a CID-11 mantém os especificadores de gravidade, mas inclui agora o especificador “com sintomas mistos” de forma explícita, algo que a CID-10 não contemplava de forma padronizada. Isso é relevante para a comunicação com psiquiatras e para a escolha farmacológica.
Instrumentos psicométricos validados para a população brasileira continuam sendo usados normalmente, desde que seus resultados sejam interpretados à luz dos critérios da CID-11.
Comunicando-se com médicos, psiquiatras e o SUS
Uma das vantagens mais concretas da CID-11 é a capacidade de usar a mesma linguagem diagnóstica em diferentes contextos de saúde, sem perda de informação na tradução.
Quando o psicólogo usa a CID-11 corretamente em seu laudo, médicos e psiquiatras recebem informações precisas, sem necessidade de interpretação adicional.
Na prática multidisciplinar, isso facilita de forma tangível:
- O encaminhamento para psiquiatria com informações diagnósticas que permitem ao médico avaliar hipóteses farmacológicas sem partir do zero
- A comunicação com médicos de família e clínicos gerais em modelos de saúde integrada, onde o psicólogo faz parte da equipe de cuidado primário
- O registro em sistemas eletrônicos de saúde que já operam com CID-11, evitando a duplicação de informações ou perdas de dados no sistema
- A participação em equipes multiprofissionais no SUS, onde a linguagem diagnóstica comum acelera o cuidado e reduz o risco de decisões clínicas baseadas em informações incompletas
Para quem trabalha em saúde pública, a dimensão epidemiológica também é relevante.
Os dados gerados com os novos códigos da CID-11 alimentam sistemas de vigilância em saúde e influenciam políticas públicas.
O profissional que documenta com precisão contribui para um sistema de informação mais representativo da realidade, e isso tem impacto coletivo real.
Se você quer aprimorar a qualidade técnica da sua documentação clínica, fale comigo.
Erros comuns na transição da CID-10 para a CID-11
A maioria dos erros na transição acontece por hábito, por pressão de tempo, por falta de informação atualizada, ou por confiar demais em atalhos que parecem seguros.
Quando o código muda de categoria completamente
Alguns diagnósticos mudaram tanto de posição na CID-11 que a correspondência com a CID-10 é enganosa à primeira vista.
O Burnout é o exemplo mais crítico:
- Na CID-10 estava em Z73.0, um código do capítulo Z, que já sinalizava um contexto e não uma doença;
- Na CID-11, está em QD85, fora do capítulo de transtornos mentais, com essa distinção ainda mais explícita.
Mas há profissionais que, ao buscar uma “atualização” automática do código, acabam utilizando um código de transtorno do humor, o que é clinicamente incorreto e prejudica o paciente em contextos de perícia ou de acesso a benefícios.
Outro exemplo crítico: a síndrome de Asperger (F84.5) não tem um código equivalente direto na CID-11.
A conversão correta é 6A02 com qualificadores específicos de perfil funcional, o que exige avaliação clínica, não conversão automática.
Um código genérico de TEA sem qualificadores representa uma perda de informação clínica que pode comprometer o acesso a adaptações educacionais, benefícios legais e planos de cuidado individualizados.
Uso de versões desatualizadas e tabelas de conversão automática
Existe uma proliferação de tabelas de conversão CID-10/CID-11 disponíveis online, algumas produzidas por instituições respeitáveis, outras de origem incerta e sem revisão clínica.
O problema é que nenhuma tabela de conversão automática substitui o raciocínio clínico contextualizado.
A própria OMS disponibiliza um mapeamento oficial de correspondências entre CID-10 e CID-11, mas com advertências explícitas de que algumas correspondências são aproximadas, não equivalências diretas.
Um código da CID-10 pode corresponder a múltiplos códigos na CID-11, e a escolha entre eles depende de critérios clínicos que só o profissional que avaliou o paciente pode determinar.
Como a falta de especificidade enfraquece o laudo?
Um laudo que usa apenas o stem code sem qualificadores de gravidade ou curso, quando esses qualificadores estão disponíveis e são clinicamente relevantes, é tecnicamente incompleto.
Em contextos de auditoria por convênios, de contestação jurídica ou de revisão por órgão de classe, a falta de detalhe é interpretada como imprecisão técnica e usada contra o profissional.
Para documentação tecnicamente robusta em laudos com CID-11:
- Inclua o código completo com todos os qualificadores clinicamente aplicáveis;
- Referencie explicitamente a CID-11 como sistema de classificação utilizado;
- Descreva no corpo do laudo os elementos clínicos que justificam o código escolhido e seus qualificadores;
- Registre o instrumento de avaliação utilizado, quando o diagnóstico foi subsidiado por testagem psicológica;
- Inclua a data de emissão e, quando aplicável, o período de validade do documento.
Perguntas frequentes
- O que é a CID-11?
A CID-11 é a 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças, publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2019 e em vigor desde janeiro de 2022. Ela é o sistema global de referência para nomear, codificar e comunicar diagnósticos de saúde, incluindo transtornos mentais, de forma padronizada entre profissionais e países. - Quando a CID-11 passou a ser válida no Brasil?
Internacionalmente, a CID-11 entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022. No Brasil, a transição está em curso, com sistemas como o DATASUS ainda operando com a CID-10 em algumas plataformas. Não há uma data de corte nacional definida até o momento, mas convênios privados já estão em diferentes estágios de adaptação. - Qual é a principal diferença entre a CID-10 e a CID-11?
A CID-11 foi projetada como um sistema digital, com códigos alfanuméricos distintos dos da CID-10, um modelo de codificação pós-coordenada que permite maior especificidade clínica, novos diagnósticos e uma revisão profunda de categorias, especialmente em saúde mental, onde vários diagnósticos foram reorganizados, ampliados ou extintos. - Como acessar o navegador oficial da CID-11?
O navegador oficial é gratuito e está disponível em https://icd.who.int/browse/2026-01/mms/en. Permite busca por nome do diagnóstico ou pelo código, com acesso às notas clínicas, critérios de inclusão e exclusão e orientações para a codificação pós-coordenada. - O Burnout é um diagnóstico de transtorno mental na CID-11?
Não. O Burnout (QD85) está classificado na CID-11 como um fenômeno ocupacional, fora do capítulo de transtornos mentais. Ele deve ser usado como código complementar em laudos, mas não é o diagnóstico primário de um documento clínico psicológico. - O que é o TEPT Complexo e por que ele é relevante?
O TEPT Complexo (6B41) é um diagnóstico novo na CID-11 que descreve os efeitos de trauma prolongado e repetido de natureza interpessoal. Além dos sintomas do TEPT convencional (6B40), inclui desregulação afetiva persistente, alterações no senso de self e dificuldades relacionais graves, um perfil clínico que antes era frequentemente confundido com transtornos de personalidade. - A síndrome de Asperger ainda existe como diagnóstico na CID-11?
Não como categoria independente. A CID-11 unificou todos os diagnósticos do espectro autista sob o código 6A02 (Transtorno do espectro autista). Laudos com diagnóstico de Asperger (F84.5) baseados na CID-10 mantêm sua validade histórica, mas novos documentos devem usar o código 6A02 com os qualificadores funcionais corretos. - O Gaming Disorder é um diagnóstico oficial?
Sim. O Transtorno de jogo (6C51) foi incluído oficialmente na CID-11. Mas os critérios são específicos: exigem perda de controle sobre o comportamento de jogar, comprometimento funcional grave em múltiplas áreas da vida e padrão persistente por pelo menos 12 meses. Jogar muito, por si só, não constitui diagnóstico. - O que são stem codes e extensões na CID-11?
Stem codes são os códigos-base de cada diagnóstico na CID-11. As extensões são qualificadores que são adicionados ao stem code para especificar gravidade, curso, características associadas e outros modificadores clinicamente relevantes. Essa combinação, chamada de codificação pós-coordenada, é o que permite ao sistema ser mais preciso do que a CID-10. - Posso usar os códigos da CID-10 e da CID-11 no mesmo laudo?
Sim, quando necessário. Em situações de transição, onde o sistema receptor ainda opera com CID-10, é possível incluir ambos os códigos com uma nota explicativa sobre a equivalência e a versão de referência utilizada. A clareza sobre qual versão está sendo aplicada protege o profissional e facilita o processamento do documento. - Como os transtornos de personalidade funcionam na CID-11?
A CID-11 substituiu as dez categorias fixas da CID-10 por um modelo dimensional. O profissional avalia primeiro a gravidade do comprometimento (leve 6D10, moderado 6D11, grave 6D12) e depois adiciona qualificadores de traço predominante: negatividade afetiva, distanciamento, dissocialidade, desinibição ou anancástia. Há ainda um especificador para padrão borderline. - A CID-11 é a mesma coisa que o DSM-5?
Não. O DSM-5 é publicado pela American Psychiatric Association e é amplamente usado nos Estados Unidos para fins diagnósticos e de pesquisa. A CID-11 é publicada pela OMS, tem adoção global e é o sistema de referência para fins legais, epidemiológicos e de saúde pública em países como o Brasil. Há sobreposições, mas também diferenças relevantes de critérios e terminologia. - O psicólogo é obrigado a informar o código diagnóstico ao convênio?
Quando emite um laudo ou relatório para fins de autorização ou reembolso por convênio, sim. O código diagnóstico é geralmente exigido. O psicólogo tem obrigação ética de informar o paciente sobre quais dados serão compartilhados e para qual finalidade antes de emitir o documento, garantindo o consentimento informado. - Como evitar problemas em laudos usando a CID-11?
Use o código completo com todos os qualificadores aplicáveis, referencie explicitamente a versão CID-11 utilizada, mantenha coerência entre o código registrado e a descrição clínica do laudo, e evite tabelas de conversão automática sem verificação clínica. Quando houver ambiguidade com o sistema receptor, inclua os dois códigos com nota explicativa.
Referências
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª Revisão. Genebra: OMS, 2022. Disponível em: https://icd.who.int. Acesso em: mai. 2025.
- REED, Geoffrey M. et al. Innovations and changes in the ICD-11 classification of mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. World Psychiatry, v. 18, n. 1, p. 3–19, 2019.
- CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/05. Brasília: CFP, 2005. Disponível em: https://www.cfp.org.br. Acesso em: mai. 2025.
