Neste artigo você encontra, reunidos em um só lugar: (Artigo primeira vez publicado em Terapeuta online Emilson Silva)
- Seus direitos como pessoa em atendimento terapêutico;
- O que o sigilo protege;
- Por que o terapeuta age de formas que parecem estranhas e;
- Como funcionam faltas, cancelamentos e prontuário.
Essas perguntas aparecem porque quase ninguém explica as regras do jogo antes de você entrar no consultório.
Você aprende a pedir ajuda, mas ninguém te ensina o que pode exigir dentro desse espaço.
E essa lacuna gera ansiedade, mal-entendidos e com frequência, abandono precoce de um processo que poderia estar funcionando muito bem.
O que você vai encontrar aqui tem base no Código de Ética Profissional do Psicólogo e em anos de prática clínica.
São respostas concretas para situações reais.
A ideia é simples: quanto mais você entende o processo, mais consegue aproveitar dele.
- Seus direitos fundamentais como usuário do serviço de psicologia;
- O que o sigilo protege e quando pode ser quebrado;
- Como acessar seu prontuário psicológico;
- Por que o terapeuta age de formas que parecem estranhas (silêncio, olhar, sem conselhos);
- Como lidar com faltas, cancelamentos e cobranças;
- Quando e como trocar de psicólogo, ou encerrar o processo corretamente.
O que significa ser paciente em terapia
Ela vem da medicina e, durante muito tempo, significou alguém passivo que recebe tratamento, que espera, que obedece.
Na terapia contemporânea, isso mudou.
Mas a mudança não chegou para todo mundo ao mesmo tempo, e muita gente ainda entra no consultório com uma postura de “vou fazer o que o doutor mandar”.
Hoje, quem está em terapia é chamado de formas diferentes dependendo da abordagem:
- Paciente;
- Cliente;
- Consultante;
- Usuário do serviço.
Cada termo reflete uma visão sobre o papel de quem busca atendimento.
Mas independentemente do nome que seu terapeuta use, uma coisa é certa: você não é um receptor passivo de um tratamento. Você é o protagonista do seu processo.
Isso tem implicações práticas e concretas. Significa que você deve perguntar sobre a abordagem usada.
- Pode questionar o andamento do processo;
- Pode discordar do que o terapeuta diz;
- Pode pedir explicações sobre qualquer aspecto do atendimento sem medo de parecer difícil ou inconveniente;
- E pode, inclusive, encerrar o processo quando quiser, sem precisar de justificativa e sem dever satisfações.
Na prática clínica, percebo que muitas pessoas entram na terapia esperando que o profissional “conserte” algo nelas, como se fosse uma cirurgia.
Porém, a terapia não é uma cirurgia onde você adormece e acorda diferente.
A terapia é uma construção ativa, que exige participação consciente, inclusive para questionar o processo quando algo não parece fazer sentido.
- Você sabe qual é a abordagem teórica que seu terapeuta usa?
- Você já perguntou qual é o objetivo do processo neste momento?
- Você se sente confortável para discordar do que o psicólogo diz?
- Você conhece seus direitos dentro do consultório?
- Você sabe o que fazer se sentir que o processo não está funcionando?
Se você respondeu “não” para alguma dessas perguntas, continue lendo. Este artigo existe exatamente para preencher essas lacunas.
Seus direitos como pessoa em atendimento terapêutico
O Código de Ética Profissional do Psicólogo, publicado pelo Conselho Federal de Psicologia em 2005, estabelece uma série de direitos para quem está em atendimento.
O problema é que pouquíssimas pessoas em terapia já leram esse documento e muitos profissionais também não comunicam esses direitos de forma ativa no início do processo.
Direito à informação clara sobre o processo
Você tem direito de saber qual abordagem teórica seu terapeuta usa, o que ela propõe e como ela se aplica ao seu caso.
Não precisa entender tudo desde o início.
Mas o psicólogo tem obrigação ética de explicar, de forma acessível, o que está sendo feito e por quê.
Se ele nunca falou sobre isso, você pode (e deve) perguntar na próxima sessão.
Direito ao sigilo profissional
Tudo o que você compartilha em sessão é protegido pelo sigilo profissional.
Seu terapeuta não pode revelar o conteúdo das suas sessões para terceiros, nem para sua família, nem para seu empregador, nem para amigos em comum.
Esse é um dos pilares éticos da psicologia, e sua violação configura infração grave, passível de punição pelo Conselho Federal de Psicologia.
Direito ao consentimento informado
Antes de qualquer procedimento que fuja do atendimento padrão você precisa ser informado e dar seu consentimento explícito.
Sem isso, o procedimento não pode acontecer. Não é preciosismo: é ética básica.
Direito de recusar ou encerrar o atendimento
Ninguém é obrigado a continuar em terapia.
Você pode encerrar o processo a qualquer momento, sem precisar dar explicações longas ou justificadas.
Pode recusar técnicas específicas que não fazem sentido para você. Pode pedir para trocar de profissional sem culpa.
A autonomia sobre o seu processo é sua, não do terapeuta.
Direito a um atendimento sem discriminação
O psicólogo é eticamente impedido de recusar atendimento ou tratar de forma diferenciada com base em raça, etnia, gênero, orientação sexual, religião, condição socioeconômica ou qualquer outra característica pessoal.
Se você perceber que está sendo discriminado, registre uma denúncia no CRP (Conselho Regional de Psicologia) do seu estado.
Direito à privacidade do seu prontuário
O prontuário psicológico pertence a você.
O psicólogo é responsável por elaborá-lo e mantê-lo guardado, mas as informações nele contidas são suas e você tem o direito de acessá-las a qualquer momento.
Falaremos mais sobre isso em detalhes na seção seguinte.
| Direito | O que significa na prática |
|---|---|
| Informação clara | Saber qual abordagem está sendo usada e por quê ela foi escolhida |
| Sigilo | Nenhum conteúdo de sessão revelado a terceiros sem sua autorização |
| Consentimento informado | Aprovar qualquer procedimento fora do padrão antes que aconteça |
| Encerramento livre | Sair da terapia quando quiser, sem dever justificativas |
| Não discriminação | Atendimento igualitário, independentemente de quem você é |
| Acesso ao prontuário | Solicitar e receber informações do seu prontuário psicológico |
O que seu psicólogo guarda e quando ele pode falar?
O sigilo é a espinha dorsal da relação terapêutica.
Sem ele, não há confiança. Sem confiança, não há abertura real. E sem abertura, o processo se torna uma performance, onde você fala o suficiente para parecer que está se abrindo, mas guarda o que de fato importa.
O Código de Ética trata o sigilo com tanta seriedade exatamente porque ele é a condição mínima para que a terapia funcione.
Mas existem exceções. E elas costumam gerar muita confusão.
Quando o sigilo pode ser quebrado
O psicólogo pode, e em alguns casos deve quebrar o sigilo quando há risco real e imediato de vida para você ou para terceiros.
Se, durante uma sessão, você revela um plano concreto de suicídio ou de violência contra outra pessoa, o profissional tem obrigação ética de agir para proteger a vida envolvida.
Existe uma diferença enorme entre expressar angústia (“às vezes quero desaparecer”) e comunicar um plano específico (“decidi que vou fazer isso na sexta-feira, já sei como”).
Seu terapeuta é treinado para avaliar essa diferença.
Falar sobre pensamentos de morte não aciona uma sirene automática, e se você tem medo de se abrir por essa razão, vale conversar diretamente sobre isso com seu profissional.
Outra situação é a determinação judicial.
Se um juiz ordenar que o psicólogo preste informações em um processo, ele é obrigado a fazê-lo.
Mas mesmo nesse caso, o profissional deve agir dentro dos limites do que é estritamente necessário, preservando ao máximo a confidencialidade do restante do processo.
Supervisão clínica e uso acadêmico
Uma dúvida frequente: o psicólogo pode comentar seu caso em supervisão clínica ou em contextos de formação?
Sim, mas sem revelar sua identidade.
Os dados que permitam sua identificação devem ser omitidos ou alterados.
Supervisão clínica é uma prática necessária e saudável para o profissional. Só que o anonimato do paciente é obrigatório nesse contexto.
E se você for menor de idade?
O sigilo ainda se aplica. Os pais ou responsáveis não têm acesso automático ao conteúdo das sessões de um adolescente em terapia.
O psicólogo pode compartilhar informações gerais sobre o andamento do processo: se está indo bem, se há alguma preocupação que precise de atenção da família.
Porém, o conteúdo específico das sessões permanece confidencial. A exceção, aqui também, é risco de vida.
Isso costuma gerar tensão com famílias que pagam pelo atendimento e sentem que têm direito de saber “o que está sendo conversado”.
O pagamento não compra o conteúdo das sessões. O sigilo pertence ao paciente, não a quem está bancando o tratamento.
Seu prontuário psicológico: o que contém e como você faz para acessar
O prontuário psicológico é o documento onde o terapeuta registra o histórico do atendimento.
Ele contém:
- Motivo da busca por atendimento;
- Histórico clínico relevante;
- Anotações de sessão;
- Resultados de testes psicológicos aplicados;
- Hipóteses diagnósticas e;
- A evolução do processo ao longo do tempo.
Muita gente não sabe que esse documento existe. Menos ainda sabe que pode solicitá-lo.
Você tem o direito legal e ético de pedir acesso ao seu prontuário a qualquer momento, inclusive depois que a terapia acabou.
O psicólogo não pode se recusar a fornecer essa informação.
Se quiser saber exatamente como fazer esse pedido, preparei um artigo completo explicando como você pode acessar e pedir seu prontuário psicológico.
Uma distinção importante: o fato de o prontuário ser seu não significa que você tem o direito de alterá-lo.
As anotações clínicas refletem a perspectiva e a avaliação do profissional sobre o processo.
Você pode discordar do que está escrito, mas não pode exigir que o terapeuta modifique suas conclusões clínicas para agradar você.
São duas coisas completamente diferentes.
Em alta entre os leitores:
O que você NÃO deve esperar da terapia
Talvez esta seja a seção mais importante deste guia.
Expectativas erradas são, na minha experiência clínica, uma das principais causas de abandono precoce da terapia e de decepções que seriam completamente evitadas com uma conversa franca no início do processo.
Terapia não é cura rápida
Se você está em terapia esperando se sentir completamente diferente em dois ou três meses, há uma chance real de decepção.
Não porque a terapia não funcione, mas porque transformações psicológicas reais levam tempo.
Às vezes o processo piora antes de melhorar, porque trazer à tona o que estava enterrado dói.
Você revira o que estava quieto. Isso é normal. Não é sinal de que algo deu errado.
Terapia não é amizade
O psicólogo se importa com você, genuinamente.
Mas a relação terapêutica tem limites que existem por um bom motivo
- Ele não vai ser seu amigo nas redes sociais;
- Não vai contar detalhes da própria vida;
- Não vai estar disponível a qualquer hora do dia.
Esses limites são proteção para você e para a qualidade do processo.
Terapia não é um espaço de validação constante
Às vezes o terapeuta vai dizer coisas que você não quer ouvir.
- Vai questionar suas narrativas;
- Vai apontar padrões que você preferiria ignorar;
- Vai devolver perguntas que você queria que ele respondesse.
Isso incomoda e é exatamente por isso que funciona.
A terapia que só te diz o que você quer ouvir não é terapia: é uma conversa cara.
Há muito mais sobre esse tema que vale explorar com cuidado.
Se quiser entender melhor o que a terapia não é, e o que você realmente não deveria estar esperando do processo, leia este artigo sobre o que você não deve esperar de uma terapia.
Ele vai economizar muita frustração desnecessária.
Por que seu psicólogo não te diz o que fazer
Esta é uma das queixas que mais escuto no consultório, de pessoas que estão em terapia comigo ou que passaram por outros profissionais antes.
“Eu falo e falo durante a sessão inteira, e no final ele só me devolve uma pergunta. Por que ele simplesmente não me diz o que fazer?”
A resposta curta: porque não é papel dele.
A resposta longa é mais interessante. Quando um psicólogo te diz o que fazer, ele assume a responsabilidade pelo seu processo.
E aí você perde a oportunidade de desenvolver sua própria capacidade de tomar decisões, de entender seus padrões, de construir autonomia real.
A terapia que funciona é aquela que, no final, torna você menos dependente de ajuda externa, não mais.
Existe outro problema em dar conselhos: o terapeuta conhece uma fatia da sua vida. Não a vida inteira.
Não convive com você no dia a dia, não conhece seus relacionamentos com a profundidade que você conhece, não viveu suas experiências.
Dar conselhos a partir desse lugar seria, na prática, irresponsável, mesmo com as melhores intenções.
Isso não significa que o psicólogo nunca oferece nenhum tipo de direcionamento.
Dependendo da abordagem e do momento do processo, ele pode fazer sugestões, indicar leituras, propor exercícios práticos entre as sessões.
Mas a diferença entre uma sugestão e uma ordem é fundamental, e é exatamente essa diferença que preserva sua autonomia.
Se você ainda está se perguntando por que o psicólogo parece esquivar de respostas diretas, este artigo explica com mais profundidade por que seu psicólogo não diz o que fazer.
Comportamentos do terapeuta que parecem estranhos
Você já saiu de uma sessão perturbado não pelo que foi dito, mas pelo que não foi?
Esses comportamentos têm razão de ser.
O silêncio terapêutico não é vazio
O silêncio em terapia não é ausência. É uma forma diferente de presença.
Quando o terapeuta fica em silêncio depois de algo que você disse, ele está abrindo espaço para que você continue, aprofunde, ou apenas deixe o que foi dito pousar antes de ser interpretado.
O silêncio é uma ferramenta deliberada, não uma falha ou descuido.
O problema é que o silêncio é profundamente desconfortável para a maioria das pessoas.
A tendência é preenchê-lo imediatamente, às vezes com exatamente a parte mais importante do que você tinha a dizer.
O terapeuta sabe disso. Ele está esperando o que vem depois do desconforto.
Se quiser entender esse comportamento com mais detalhe, este artigo explica por que seu psicólogo fica em silêncio durante a terapia.
O olhar do terapeuta comunica atenção real
O contato visual sustentado parece estranho fora do consultório.
Mas na terapia, o olhar do profissional comunica algo fundamental: presença plena.
Ele não está checando o celular mentalmente enquanto você fala. Está observando não só o que você diz, mas como você diz:
- O tom de voz;
- A postura;
- A tensão no rosto;
- O que muda quando você toca em determinado assunto.
Às vezes o terapeuta percebe contradições entre o que você fala e como seu corpo se comporta.
A pessoa que diz “estou bem” enquanto os ombros caem, a voz falha e os olhos desviam.
Esse olhar atento é o instrumento que capta o que as palavras não dizem.
Se isso te gera desconforto e você quer entender melhor o que passa pelo olhar do terapeuta, este artigo sobre por que o psicólogo fica te olhando durante a sessão de terapia.
Faltas, cancelamentos e pagamento
Esse é um tema que gera muito desconforto e muita confusão.
- O que acontece se você faltar?
- E se o psicólogo faltar?
- Você é obrigado a pagar por uma sessão que não aconteceu?
- Existe um prazo mínimo de aviso para cancelamento?
As respostas dependem, em grande parte, do que foi combinado no início do processo.
Se você faltar
Na maioria dos consultórios, existe uma política de cancelamento, e ela varia bastante.
Alguns profissionais cobram pela sessão perdida se o aviso vier com menos de 24 ou 48 horas. Outros não cobram em nenhuma circunstância.
Não existe uma regra única definida pelo CFP para isso.
O que existe é o acordo entre você e o profissional, que deve ser explicitado antes do início do atendimento.
Se ninguém te explicou essa política no começo, você deve perguntar agora.
Não existe constrangimento em fazer essa pergunta.
Se quiser entender melhor seus direitos e obrigações nesse ponto, leia este artigo sobre se você deve pagar pela falta na sessão de terapia.
Se o psicólogo faltar ou desmarcar
Psicólogos também adoecem, têm emergências e precisam de férias.
Quando o profissional desmarca uma sessão, você não deve pagar por ela.
Isso parece óbvio, mas nem sempre é o que acontece na prática, especialmente em configurações onde o paciente já fez transferência antecipada.
Cancelamentos frequentes, com pouco aviso ou sem reagendamento consistente, são um sinal de alerta sobre o compromisso do profissional com o seu processo.
Entenda o que fazer quando o psicólogo falta ou desmarca a sessão de terapia e aprenda quando isso começa a ser um problema que merece uma conversa direta.
- Você sabe qual é a política de cancelamento do seu psicólogo?
- Essa política foi explicada antes do início do processo?
- Você sabe o que acontece se o psicólogo desmarcar com pouco aviso?
- Já aconteceu de você ser cobrado por uma sessão que o profissional cancelou?
Seu psicólogo usa inteligência artificial?
Esse tema chegou de mansinho, mas está presente em muitos consultórios agora, de forma explícita ou não.
Psicólogos usam ferramentas de inteligência artificial para transcrever sessões, organizar anotações clínicas, auxiliar no planejamento terapêutico ou pesquisar abordagens.
E isso levanta questões éticas concretas sobre seus dados pessoais.
- O que acontece com o que você diz em sessão quando o áudio é processado por um software?
- Quem tem acesso a essa transcrição?
- Ela é armazenada em algum servidor? Por quanto tempo?
- Em qual país estão esses servidores?
- Quem mais pode ver esse conteúdo?
Você tem o direito de saber se (e como) a inteligência artificial é usada no seu atendimento.
Não como uma acusação, mas como parte do seu direito ao consentimento informado.
E você tem o direito de recusar, caso não se sinta confortável com isso.
Para entender melhor esse tema e saber exatamente o que perguntar ao seu terapeuta, leia este artigo sobre por que você deve perguntar ao seu psicólogo se ele usa inteligência artificial.
Terapia online: seus direitos se mantêm
Com o crescimento do atendimento online, a dúvida surge com frequência: as regras são as mesmas?
Sim. O Conselho Federal de Psicologia regulamentou o atendimento psicológico online pela Resolução CFP nº 11/2018.
Todos os princípios éticos (sigilo, consentimento informado, direito ao prontuário, limites da relação) se aplicam da mesma forma que no presencial.
O que muda são alguns aspectos práticos. A responsabilidade sobre a privacidade do ambiente é compartilhada.
Se você faz terapia em um espaço onde outras pessoas podem te ouvir, o sigilo fica comprometido, e isso é parcialmente sua responsabilidade.
O terapeuta deve orientar sobre esse risco, mas a escolha do ambiente seguro cabe a você.
Outro ponto: sessões online não devem ser gravadas sem consentimento mútuo e explícito.
Nem você pode gravar o terapeuta sem informá-lo antecipadamente, nem ele pode fazer o mesmo sem sua autorização.
Gravar a sessão sem avisar (de qualquer lado) é uma violação ética e tem consequências legais.
Se você está pensando em iniciar uma terapia online ou quer entender melhor como esse formato funciona na prática, posso te ajudar a dar esse primeiro passo.
Comportamentos do psicólogo que são sinais de alerta reais
A grande maioria dos psicólogos é ética, comprometida e competente.
Mas é importante que você saiba distinguir entre comportamentos que parecem estranhos e são completamente normais.
Sinais que merecem atenção
Fique atento se o seu psicólogo:
- Quebrar o sigilo sem justificativa de risco de vida;
- Criar dependência emocional excessiva de forma deliberada;
- Pedir favores pessoais ou misturar a relação terapêutica com outros contextos de forma inadequada;
- Cobrar por sessões que ele mesmo cancelou;
- Negar acesso ao seu prontuário quando você solicita formalmente;
- Fazer julgamentos morais sobre suas escolhas de vida;
- Ou criar a sensação de que você não pode sair da terapia sem consequências graves.
Qualquer um desses comportamentos deve ser denunciado ao CRP do seu estado.
Você não precisa ter “provas” sólidas para registrar uma denúncia: o Conselho tem poder para investigar e apurar.
Comportamentos que parecem errados mas são parte do processo
Por outro lado, não são sinais de alerta:
- O terapeuta ficar em silêncio por um tempo longo depois do que você disse;
- Não te dar conselhos diretos sobre o que fazer na sua vida;
- Questionar suas narrativas e versões dos fatos;
- Não revelar informações pessoais sobre si mesmo;
- Cobrar pela falta se isso estava previsto em contrato;
- Ou encaminhar você para outro profissional ao reconhecer os limites da própria competência.
Esses comportamentos costumam incomodar, e às vezes são interpretados como descaso ou frieza.
Na maioria dos casos, são exatamente o oposto: são sinais de um profissional que está trabalhando dentro dos limites éticos corretos.
Quando é hora de trocar de psicólogo?
Trocar de terapeuta é um assunto que as pessoas evitam pensar.
Parece trabalho demais ter que recomeçar tudo do zero com alguém novo: recontar a história, reestabelecer o vínculo, passar pelo período de adaptação outra vez.
Mas às vezes é a coisa mais inteligente que você vai fazer pelo seu processo.
Existem sinais que merecem atenção:
- Você sai de todas as sessões se sentindo pior, sem nenhuma perspectiva de entendimento sobre o que está acontecendo, há meses;
- Você sente que o terapeuta não te entende e quando tenta explicar isso, a conversa vai em círculos sem resolução;
- Você percebe comportamentos que cruzam limites éticos;
- Ou o vínculo simplesmente nunca se estabeleceu, mesmo depois de um tempo razoável de tentativa.
Às vezes a questão é de compatibilidade de abordagem, de estilo, de comunicação.
Nem toda relação terapêutica vai funcionar, independentemente de o quanto os dois lados se esforcem.
Se você está pensando nisso, leia este artigo sobre como saber quando você deve trocar de psicólogo. Ele vai te ajudar a distinguir entre resistência natural ao processo e sinais genuínos de que a relação não está te servindo.
Como encerrar a terapia da forma certa
Encerrar a terapia não é simplesmente parar de ir. Ou pelo menos não deveria ser, mesmo que essa seja a forma mais comum como isso acontece na prática.
Muita gente termina o processo da maneira mais silenciosa possível: some. Para de marcar sessão. Não responde mais as mensagens. Talvez envie um áudio rápido dizendo que “está bem agora” e some.
Depois carrega uma culpa desnecessária sobre isso por semanas ou meses.
O encerramento terapêutico, quando feito de forma consciente, é em si uma parte do trabalho.
- É a oportunidade de revisar o que mudou ao longo do processo;
- De nomear o que ainda está em aberto;
- De se despedir de uma relação que teve significado real.
É diferente de qualquer outro tipo de despedida que você já viveu.
Como pessoa em atendimento, você tem o direito de encerrar quando quiser.
A forma como você encerra importa (não para o terapeuta, e sim para você). O encerramento bem feito é parte do processo, não o fim dele.
Se quiser saber como fazer isso de forma consciente e respeitosa, leia este artigo sobre como dispensar sua psicóloga da forma correta.
O que fazer quando surgem dúvidas no meio do processo?
A relação terapêutica é o único lugar onde você tem permissão total para perguntar sobre a relação enquanto ela acontece.
- “Por que você fez essa pergunta?”
- “O que você quis dizer com aquilo?”
- “Por que você ficou em silêncio ali?”
- “Você acha que estamos avançando?”
Tudo isso é legítimo. E um bom profissional vai responder, mesmo que a resposta seja “o que você acha que aconteceu aqui?”
Questionar o processo é participação ativa. E participação ativa é o que torna a terapia mais eficiente.
Se você está com dúvidas sobre o seu processo e gostaria de uma perspectiva externa, ou quer começar um processo terapêutico com alguém que responde diretamente ao que você pergunta, marque uma sessão comigo.
Perguntas frequentes
- O psicólogo pode revelar o que eu disse em sessão para minha família?
Não, salvo em situações de risco real e imediato de vida (para você ou para terceiros). O sigilo profissional protege o conteúdo das sessões de qualquer terceiro, incluindo familiares, mesmo que sejam eles quem paga pelo atendimento. O pagamento não compra o acesso ao conteúdo das sessões. - Tenho direito de ver meu prontuário psicológico?
Sim. O prontuário psicológico contém informações suas, e você tem o direito de solicitar acesso a ele a qualquer momento, inclusive após o encerramento da terapia. O profissional não pode se recusar a fornecer essas informações. Se isso acontecer, você deve registrar uma queixa no CRP do seu estado. - Posso gravar as sessões de terapia?
Tecnicamente, você pode gravar o que acontece no seu ambiente, mas eticamente e juridicamente, gravar alguém sem consentimento trará consequências. O correto é informar o terapeuta antes de gravar e obter sua concordância. O mesmo vale para o lado inverso: o profissional não deve gravar a sessão sem o seu consentimento. - Sou obrigado a pagar por uma sessão que eu não fui?
Depende do que foi combinado no contrato ou no acordo verbal do início do atendimento. Alguns profissionais cobram pela falta com aviso curto; outros não cobram em nenhuma situação. Essa política precisa ser esclarecida antes do início do processo. Se não foi, pergunte diretamente ao seu terapeuta. - Posso trocar de psicólogo sem dar explicações?
Sim. Você tem autonomia total sobre o seu processo terapêutico. Pode encerrar a qualquer momento, trocar de profissional sem justificativas e sem precisar da aprovação do terapeuta atual. Idealmente, uma conversa de encerramento é saudável, mas não é uma obrigação legal ou ética da sua parte. - O psicólogo pode me “mandar embora” da terapia?
Em alguns casos, sim, o que é chamado de encaminhamento ou encerramento por iniciativa do profissional. Isso vai acontecer quando o caso está fora da competência técnica do profissional, quando há conflito de interesses ou quando a relação terapêutica se tornou inviável. O profissional deve fazer isso de forma ética, com orientação de encaminhamento, e nunca de forma abrupta. - O psicólogo pode recomendar medicação?
Não. Prescrever medicamentos é competência exclusiva de médicos, geralmente psiquiatras no contexto da saúde mental. O psicólogo deve reconhecer quando a avaliação psiquiátrica é necessária e encaminhar, mas não pode prescrever, indicar doses ou orientar o uso de medicamentos. - Quanto tempo dura um processo de terapia?
Não existe uma duração padrão. Depende da abordagem terapêutica, dos objetivos do processo, da complexidade do que está sendo trabalhado e do ritmo de cada pessoa. Alguns processos duram meses; outros, anos. O ideal é que esse tema seja conversado abertamente com o profissional e revisado periodicamente ao longo do processo. - Meu psicólogo é obrigado a me informar sobre meu diagnóstico?
Sim. Você tem direito à informação sobre o seu processo, incluindo hipóteses diagnósticas quando existirem. O profissional deve comunicar isso de forma clara e acessível. Se você tem dúvidas sobre o que está sendo trabalhado no seu caso, pergunte diretamente. - Posso levar alguém comigo para a sessão?
Em geral, não. A sessão individual de terapia é um espaço protegido entre você e o profissional. Trazer alguém de fora sem combinação prévia muda a dinâmica e vai comprometer o processo. Se você sente necessidade de uma sessão familiar ou de casal, isso deve ser discutido e planejado previamente com o terapeuta. - O que fazer se me sentir prejudicado pelo meu psicólogo?
Você deve registrar uma denúncia no Conselho Regional de Psicologia (CRP) do seu estado. O Conselho tem poder de investigar e, se houver infração comprovada, de punir o profissional, inclusive com suspensão do exercício profissional. Você não precisa de provas concretas para iniciar uma denúncia; basta relatar a situação. - Meus dados estão seguros em uma terapia online?
Depende das ferramentas que o profissional usa. As plataformas de videochamada têm diferentes níveis de segurança e privacidade. Você tem o direito de perguntar quais ferramentas são usadas no atendimento e como seus dados são armazenados. O profissional tem a obrigação ética de usar meios que garantam a confidencialidade do atendimento. - O psicólogo pode me atender e atender meu familiar ao mesmo tempo?
Em geral, não, e isso tem um nome: conflito de papéis. Atender dois membros da mesma família em processos individuais separados cria uma situação eticamente delicada, porque o profissional passa a ter acesso a informações de ambos os lados de uma relação. A maioria dos psicólogos recusa essa situação ou, no mínimo, conversa abertamente sobre os limites antes de aceitar. - Posso interromper a terapia e voltar depois?
Sim. Não existe uma regra que impeça pausas no processo terapêutico. O ideal é que a interrupção seja comunicada e, se possível, planejada junto com o terapeuta. Retomar o processo depois de uma pausa é completamente possível, com o mesmo profissional ou com outro. - O que é a aliança terapêutica e por que ela importa?
A aliança terapêutica é a qualidade do vínculo entre paciente e terapeuta, o quanto você se sente seguro, compreendido e alinhado com o profissional em relação aos objetivos do processo. Pesquisas em terapia mostram consistentemente que a qualidade da aliança terapêutica é um dos preditores mais importantes do resultado do tratamento, independente da abordagem usada. Se essa aliança não existe, o processo fica comprometido.
Referências
- CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
- CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 11, de 11 de maio de 2018: regulamenta a prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologias da informação e da comunicação. Brasília: CFP, 2018.
- ROGERS, Carl R. Terapia centrada no cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
- YALOM, Irvin D. Psicoterapia existencial. São Paulo: Edições Loyola, 2011.
