Quando o Psicólogo falta ou desmarca a sessão de terapia

Atualizado em:

Tempo de leitura: 12 minutos

A falta do Psicólogo é um compromisso agendado ao qual ele não comparece. Isso pode ter implicações negativas na relação terapêutica.

Sala de estar minimalista e iluminada com sofá, poltrona e plantas em tons neutros.

Gostou do artigo?


0

Cancelamentos eventuais fazem parte da vida de qualquer profissional. (Artigo primeira vez publicado em Terapeuta online Emilson Silva)

Mas, quando viram padrão, eles prejudicam seu processo, corroem a confiança e configuram negligência ética.

Essa conclusão vem da combinação entre o que o Código de Ética do CFP estabelece sobre responsabilidade profissional e o que a pesquisa clínica mostra sobre aliança terapêutica.

O vínculo entre paciente e terapeuta que é, comprovadamente, um dos maiores determinantes da eficácia do tratamento.

O que você deve fazer é simples na teoria e difícil na prática:

  • Registrar os episódios;
  • Nomear o problema diretamente para o profissional e;
  • Se necessário, trocar de terapeuta sem culpa.

Este artigo te mostra como identificar cada um desses passos com clareza.

  1. Como distinguir um imprevisto legítimo de um padrão problemático
  2. O que você perde quando a sessão é cancelada
  3. Os sinais objetivos de que está sendo enrolado
  4. Por que é difícil reclamar do próprio terapeuta e como fazer isso
  5. O que o Código de Ética do CFP garante a você
  6. Quando cancelamentos frequentes configuram abandono terapêutico

Desmarcamento existe, mas o problema é a frequência

Todo terapeuta é humano. Adoece, tem emergências, enfrenta imprevistos.

Um cancelamento eventual, comunicado com antecedência razoável e seguido de reagendamento claro, faz parte da realidade de qualquer profissional. Isso não é o problema.

O problema começa quando o cancelamento deixa de ser exceção e vira padrão.

Quando você começa a contar quantas sessões de fato aconteceram no último mês e percebe que foram menos do que deveria, ou quando você para de se surpreender porque já esperava que algo fosse acontecer.

  • Nos últimos dois meses, quantas sessões foram canceladas pelo seu psicólogo?
  • Os cancelamentos costumam vir com quanto tempo de antecedência?
  • Depois de cada cancelamento, foi oferecido um horário de reposição?
  • Você percebe algum padrão, como certas semanas, certos dias?
  • Como você se sentiu nas horas seguintes ao cancelamento?

O que você perde quando a sessão é cancelada

Terapia não funciona como uma consulta médica comum, onde você vai, recebe uma prescrição e volta daqui a três meses.

O processo terapêutico depende de continuidade. Cada sessão retoma o fio da anterior.

Um tema que emergiu semana passada deve ser desenvolvido agora. Uma crise que aconteceu ontem deve ser processada hoje.

Quando a sessão é desmarcada, você não perde apenas uma hora. Você perde o momento.

O que estava na superfície afunda de volta. O que estava prestes a ser dito fica guardado por mais uma semana, e às vezes para sempre, porque o contexto já não é o mesmo.

Tem também o impacto financeiro que raramente é mencionado. Dependendo do contrato firmado com o profissional, você está pagando por sessões que não acontecem, ou pagando pela remarcação sem qualquer desconto ou compensação.

Isso é dinheiro real, saindo do seu bolso, por um serviço que não foi entregue.

E tem algo mais difícil de nomear: o efeito emocional de ser deixado para trás.

Mesmo que racionalmente você entenda que foi um imprevisto, uma parte sua registra a ausência. Registra que você se preparou, se abriu internamente para aquele espaço e ele não aconteceu.


Os sinais de que você está sendo enganado

Existe uma diferença clara entre um profissional que enfrenta imprevistos genuínos e um profissional que está, conscientemente ou não, negligenciando o compromisso com você.

Esses são os comportamentos que merecem atenção:

  • Cancelamentos de última hora repetidos
    Avisos chegando minutos antes da sessão, sem tempo hábil para você reorganizar seu dia.
  • Ausência de reagendamento proativo
    O psicólogo cancela, mas não oferece outro horário. Você que precisa correr atrás.
  • Justificativas vagas ou genéricas
    “Tive um imprevisto”, sem qualquer contexto, toda vez. Emergências acontecem, mas com frequência incomum?
  • Padrão recorrente em datas específicas
    Cancelamentos que acontecem sempre antes de feriados, finais de semana prolongados ou períodos de férias.
  • Falta sem aviso
    O horário chegou, você estava lá, e o psicólogo simplesmente não apareceu e não entrou em contato.
  • Sessões encurtadas sem justificativa
    A sessão começa atrasada ou termina antes do tempo, sem que isso seja discutido ou compensado.
  • Ausência de retomada do processo
    Quando a sessão finalmente acontece após um cancelamento, o profissional não reconhece a interrupção nem pergunta como você ficou no período.

Um ou dois desses episódios isolados são coincidência. Três ou mais, em sequência ou com frequência, são um padrão.

E padrões dizem mais sobre um profissional do que qualquer episódio isolado.


O que o Código de Ética diz

O Conselho Federal de Psicologia, por meio do seu Código de Ética Profissional, estabelece que o psicólogo tem responsabilidade direta com o bem-estar do paciente e com a qualidade do serviço prestado.

Isso inclui:

  • O cumprimento dos compromissos assumidos;
  • A continuidade do atendimento e;
  • O cuidado com os impactos que qualquer interrupção causar.

Cancelamentos frequentes, falta de reagendamento e ausências sem aviso não são apenas falhas de organização.

Eles configuram descumprimento de obrigações éticas, especialmente quando o paciente está em processo ativo, em momento de crise ou em tratamento de condições que exigem regularidade.


O que você pode (e deve) fazer

Você tem direitos na relação terapêutica, e a primeira coisa é registrar.

Parece burocrático, mas ter clareza sobre quantas vezes isso aconteceu, em que datas e em quais condições tira você do campo da impressão e coloca no campo dos fatos.

Fica muito mais difícil se convencer de que está exagerando quando os dados estão na sua frente.

A segunda coisa é conversar diretamente com o profissional.

Sim, isso é desconfortável. Especialmente porque a relação terapêutica carrega uma assimetria de poder que torna o confronto mais difícil.

Mas um terapeuta que reage mal a um feedback legítimo sobre sua postura profissional está revelando algo importante sobre a qualidade do atendimento que oferece.

  • Registre cada cancelamento: data, horário, como foi comunicado e se foi oferecida reposição.
  • Numa sessão, traga o tema diretamente: “Percebi que tivemos X cancelamentos no último mês. Quero entender como isso vai ser tratado daqui pra frente.”
  • Observe a resposta: não só o que é dito, mas como é dito. Defensividade, minimização ou inversão de culpa são sinais importantes.
  • Se o padrão continuar após a conversa, considere seriamente buscar outro profissional.
  • Saiba que trocar de terapeuta não é fracasso, não é deslealdade e não é recomeçar do zero. É autocuidado.

Se você está pensando em iniciar ou recomeçar a terapia com alguém que leve seu processo a sério, posso te ajudar.

Atendo online, com agenda clara e compromisso real com a continuidade do seu processo.


Quando a desmarcação vira abandono terapêutico

Existe um ponto em que cancelamentos frequentes deixam de ser descuido e se tornam o que a literatura clínica chama de abandono terapêutico unilateral.

É quando o profissional, gradualmente ou de forma abrupta, se retira do processo sem encaminhar adequadamente o paciente.

Isso acontece de formas explícitas:

  • O terapeuta some;
  • Para de responder;
  • Encerra o contrato sem aviso adequado.

Mas também acontece de forma silenciosa:

  • Os cancelamentos se acumulam;
  • Os reagendamentos nunca se concretizam;
  • O espaço vai murchando até não existir mais.

Para pacientes em processos longos, ou em momentos de maior vulnerabilidade emocional, esse tipo de ruptura tem peso real.

É um evento clínico com consequências documentadas, como:

  • Aumento de sintomas;
  • Dificuldade de confiar em novos terapeutas;
  • Sensação de ter sido descartado justamente no lugar que deveria ser seguro.

Se você se reconhece nessa descrição, uma coisa precisa ser dita com clareza: o que aconteceu com você não foi normal, não foi culpa sua e não precisa se repetir.

Terapia de qualidade existe. E você tem o direito de exigir isso.


Perguntas frequentes

  1. Quantos cancelamentos por mês já são considerados excessivos?
    Não existe um número universalmente fixado, mas dois ou mais cancelamentos no mesmo mês, especialmente sem reagendamento claro, já indicam um padrão que merece atenção. O que importa observar não é só a quantidade, mas a recorrência ao longo do tempo e a forma como cada cancelamento é tratado pelo profissional.
  2. O psicólogo é obrigado a repor a sessão cancelada por ele?
    Isso depende do contrato firmado entre vocês. Mas do ponto de vista ético, quando o cancelamento parte do profissional, oferecer uma reposição é o mínimo esperado. A ausência dessa oferta é um sinal de descaso com o seu processo e com o seu tempo.
  3. E se o psicólogo cancelar por motivo de saúde? Tenho que aceitar?
    Um cancelamento por doença é compreensível e humano. O problema não está no motivo isolado, mas na frequência. Se cancelamentos por saúde acontecem todo mês, isso levanta uma questão legítima sobre a capacidade do profissional de manter uma agenda estável e comprometida com seus pacientes.
  4. Posso cobrar o psicólogo por ter faltado sem avisar?
    Você deve abordar o tema diretamente. Faltar sem aviso é uma quebra de compromisso profissional. Dependendo do que está estabelecido no contrato, há implicações financeiras. Mesmo sem contrato formal, você tem o direito de exigir uma explicação e um posicionamento claro sobre como isso será evitado.
  5. Como abordar o assunto sem parecer difícil ou exigente demais?
    Com objetividade e sem pedido de desculpas. Você deve dizer algo como: “Percebi que tivemos vários cancelamentos recentemente e quero entender como isso vai funcionar daqui pra frente.” Você não está atacando, mas exercendo seu direito de ter clareza sobre o serviço que está pagando.
  6. Se eu reclamar, o psicólogo vai encerrar o atendimento?
    Um profissional ético não encerra um atendimento como retaliação a um feedback legítimo. Se isso acontecer, ou se a postura do terapeuta mudar negativamente após a conversa, isso indica que a relação terapêutica já estava comprometida antes mesmo da sua reclamação.
  7. Trocar de terapeuta no meio do processo prejudica meu tratamento?
    Depende de como a transição é feita. Uma troca bem conduzida, com tempo adequado para encerramento do processo atual e início criterioso do próximo, não desfaz o que foi trabalhado. O que prejudica o tratamento, de verdade, é permanecer numa relação terapêutica que não está funcionando.
  8. O que é abandono terapêutico e como saber se estou passando por isso?
    Abandono terapêutico é quando o profissional se retira do processo sem encaminhamento adequado, seja de forma abrupta ou gradual, através de cancelamentos acumulados que nunca se resolvem. Se você percebe que as sessões foram murchando sem explicação e sem encerramento formal, é isso que está acontecendo.
  9. Posso denunciar um psicólogo ao CFP por cancelamentos frequentes?
    Sim. O Conselho Federal de Psicologia recebe denúncias sobre condutas antiéticas, incluindo negligência com o compromisso de atendimento. Para isso, é útil ter registros dos episódios (datas, formas de comunicação e padrão observado). A denúncia deve ser feita pelo site do CFP ou do CRP do seu Estado.
  10. Como saber se o problema é o psicólogo ou se sou eu que estou resistindo à terapia?
    Resistência terapêutica é um fenômeno interno, você evita falar de certos temas, sente vontade de faltar, chega travado nas sessões. Cancelamentos frequentes são um comportamento externo, do profissional. Um não explica o outro. Você pode resistir à terapia e ainda assim estar sendo negligenciado pelo terapeuta.
  11. O psicólogo vai cobrar pela sessão que ele mesmo cancelou?
    Não deveria. Cobrar por uma sessão que o próprio profissional cancelou, sem reposição, é eticamente questionável e contratualmente problemático. Se isso está acontecendo, verifique o que foi acordado no início do atendimento e, se necessário, questione formalmente.
  12. Tenho direito a um contrato formal com meu psicólogo?
    Sim. Ter clareza sobre as condições do atendimento (horários, valores, política de cancelamento de ambos os lados) é um direito seu. Muitos profissionais trabalham sem contrato escrito, mas isso não impede que você peça um acordo explícito sobre as regras que valem para os dois lados.
  13. Se as sessões online são canceladas com mais frequência, isso é normal?
    Não. O formato online não justifica maior frequência de cancelamentos. A responsabilidade com o horário e com a continuidade do processo é a mesma, independente de a sessão ser presencial ou remota. Cancelamentos mais frequentes no formato online merecem o mesmo nível de questionamento.
  14. Quanto tempo devo esperar para ver se o padrão muda após conversar com o psicólogo?
    Um mês é um prazo razoável. Se após a conversa os cancelamentos continuarem no mesmo ritmo, ou se o profissional não demonstrou nenhuma mudança de postura, a resposta já está dada.
  15. Como escolher um novo terapeuta depois de uma experiência ruim como essa?
    Pergunte diretamente, antes de começar, sobre a política de cancelamento do profissional. Observe como ele responde: com clareza e abertura, ou com vagueza. Um primeiro contato bem conduzido já diz muito sobre como será o atendimento. E confie na sua percepção. Ela funcionou antes, vai funcionar de novo.

Referências

  • CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
  • BORDIN, E. S. The generalizability of the psychoanalytic concept of the working alliance. Psychotherapy: Theory, Research and Practice, v. 16, n. 3, p. 252–260, 1979.
  • HORVATH, A. O.; SYMONDS, B. D. Relation between working alliance and outcome in psychotherapy: a meta-analysis. Journal of Counseling Psychology, v. 38, n. 2, p. 139–149, 1991.
  • ZIMMER, M. L. Ética em psicoterapia: fundamentos e dilemas clínicos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.