Terminei o relacionamento e estou sofrendo muito: o que esta acontecendo?

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Terminei meu relacionamento e estou sofrendo muito: entenda por que essa dor é normal e o que fazer nas primeiras semanas para lidar com ela.

Mulher jovem segura xícara com as duas mãos, contemplando pela janela com luz dourada de fim de tarde, em ambiente aconchegante com livros e planta ao fundo.

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Terminar um relacionamento e sentir uma dor que parece maior que você é uma resposta previsível do cérebro à perda de apego. (Artigo primeira vez publicado em Psicólogo online Emilson Silva)

O corpo reage como se estivesse em abstinência.

O que muda a intensidade dessa fase é o que você faz com ela nas primeiras semanas.

Essa conclusão vem de anos ouvindo, em consultório, a mesma frase repetida de formas diferentes: “eu sei que deveria estar melhor, mas não consigo”.

O padrão se repete tanto que deixou de ser exceção.

A explicação para a dor que você sente

Helen Fisher, pesquisadora do Kinsey Institute, usou ressonância magnética para observar o cérebro de pessoas recém-rejeitadas romanticamente.

As áreas ativadas foram as mesmas ligadas à recompensa e ao vício, junto com regiões associadas à dor física (FISHER et al., 2010).

Seu cérebro não sabe separar “perdi meu parceiro” de “perdi uma fonte de sobrevivência”. Ele reage como se você estivesse em risco real.

Isso explica por que você revisa o WhatsApp de novo, mesmo sabendo que não vai mudar nada, por que ainda dorme do lado da cama que sobrou vazio e por que o silêncio no carro, sem a voz do outro, pesa mais do que deveria.

Quem mais se cobra por “já devia estar melhor” é justamente quem estava mais seguramente apegado à relação.

Dor forte, nesse caso, é sinal de que o vínculo era real.

Você recua exatamente quando pensa nele ou nela, ou é o contrário: sente vontade de correr atrás?

As duas reações são formas diferentes do mesmo sistema de apego tentando restaurar o contato perdido, descrito por John Bowlby (1969) como protesto de separação.


O que é normal sentir nas primeiras semanas

Nas primeiras semanas, o corpo funciona em modo de emergência.

Isso tem consequências concretas, que costumam assustar quem nunca tinha vivido um término assim.

  • Choro que aparece sem aviso, inclusive em situações banais como no trabalho ou no supermercado;
  • Pensamento obsessivo sobre o ex, revivendo conversas e brigas repetidamente;
  • Alterações no sono: insônia, ou o oposto, sono em excesso;
  • Falta ou excesso de apetite;
  • Dificuldade de concentração em tarefas simples;
  • Vontade de checar redes sociais do ex, mesmo prometendo a si mesmo que não vai fazer isso.

Nenhum desses sintomas, isoladamente, indica um problema. Eles fazem parte do processo.

O ponto de atenção é a duração e a intensidade. Quanto tempo leva para você parar de reviver a briga da separação?

Se a resposta for “ainda não parei” depois de duas ou três semanas, você está dentro do esperado. Depois de vários meses sem nenhuma redução, é outra conversa.

Quando você precisará de ajuda

Existe uma linha entre sofrer intensamente e desenvolver o chamado transtorno de luto prolongado, código 6B42 (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2022).

Luto agudo esperadoSinal de alerta
Dor intensa nas primeiras semanas, com oscilaçõesDor que não diminui de intensidade após vários meses
Consegue trabalhar e cuidar de si, mesmo com esforçoIncapacidade persistente de manter rotina básica
Pensa no ex com frequência, mas alterna com outros assuntosPensamento fixo no ex, quase constante, sem alívio
Chora, mas também tem momentos de descanso emocionalSensação de entorpecimento ou vazio contínuo
Evita contato com o ex por vontade própriaIsolamento social generalizado, não só do ex

Uma tabela não substitui uma avaliação. Serve para você localizar onde está agora, sem se diagnosticar sozinho pela internet.

Se você se reconheceu mais na segunda coluna então o processo natural de luto travou em algum ponto e precisa de ajuda para destravar.

Faça estas coisas para diminuir sua dor

Aqui não tem atalho, mas uma direção:

  • Corte o contato com o ex por um período definido, sem negociar exceções “só dessa vez”;
  • Não decida nada importante sobre a relação nas primeiras semanas, seu julgamento está sequestrado pela dor;
  • Nomeie o que sente em vez de distraí-lo o tempo todo, “estou com saudade” é mais útil que “estou bem”;
  • Mantenha três rotinas mínimas: dormir em horário parecido, comer algo, sair de casa;
  • Fale com pessoas reais, não só com o feed do Instagram do ex.

Recaída faz parte. Você vai ter um dia bom e no seguinte vai mandar mensagem que jurou não mandar.

Isso não apaga o progresso anterior, só mostra que o processo não é uma linha reta.

“Mas eu nem entendi o que aconteceu, como vou superar assim?”

Essa é a objeção que mais aparece: a ideia de que só supera quem entende exatamente por que a relação acabou.

Não é verdade, e insistir nisso costuma travar o processo em vez de ajudar.

Querer entender o outro é uma forma disfarçada de manter o vínculo ativo, revisando a relação em busca de uma resposta que talvez nem exista.

O trabalho real está em outro lugar:

  • Por que você ficou tanto tempo mesmo vendo sinais?
  • O que essa relação supria em você?
  • O que você repete em vínculos diferentes.

Essas são as perguntas que levam a algum lugar. A pergunta “por que ele fez isso” geralmente não leva.

Um caso do meu atendimento

Atendi uma paciente que passou quatro meses tentando reconstruir, sessão a sessão, os motivos exatos do término.

Cada detalhe novo virava uma pista a mais para decifrar.

O que ficou claro é que quanto mais ela entendia os motivos, mais anestesiada a dor ficava, e menos ela avançava. Entender virou fuga de sentir.

A virada aconteceu quando paramos de investigar o ex e passamos a olhar para o padrão dela: por que aceitava tão pouco em troca de tanto.

Não foi um processo linear, tiveram recaídas, teve mês em que ela quis encerrar da terapia porque “não estava mais doendo tanto”.

Não estava mais doendo porque ela tinha voltado a falar com o ex escondido.

Seis meses depois, o contato tinha parado de fato e a dor tinha, enfim, diminuído de verdade.

Busque acompanhamento profissional

Se você se revisou na coluna de alerta da tabela acima, ou se já se passaram meses sem nenhuma melhora perceptível, vale buscar acompanhamento com um terapeuta.

Terapia, nesse momento, é para processar o que travou, sem prometer que o caminho vai ser confortável ou rápido.

Perguntas frequentes

  1. É normal sentir dor física depois do término?
    Sim. O cérebro processa a rejeição amorosa em regiões parecidas com as da dor física, segundo estudos de neuroimagem. O aperto no peito e o mal-estar têm base biológica, não é só “drama”.
  2. Quanto tempo é normal sofrer depois de um término?
    Não existe prazo único, mas nas primeiras semanas a dor costuma ser mais intensa e depois oscila, com melhora gradual em alguns meses. Se não diminui nada após seis meses, vale buscar ajuda.
  3. Por que eu ainda quero mandar mensagem para meu ex mesmo sabendo que não devo?
    Isso é o sistema de apego tentando restaurar contato com quem representava segurança. É automático, não é falta de força de vontade. Cortar contato por período definido ajuda a reduzir o impulso.
  4. Preciso entender por que terminou para conseguir superar?
    Não. Buscar entender demais costuma virar uma forma de manter o vínculo ativo. O foco que mais ajuda é olhar para o próprio padrão, não para os motivos do outro.
  5. É normal chorar do nada, sem motivo aparente?
    Sim, especialmente nas primeiras semanas. O corpo processa a perda em ondas, não de forma controlada. Isso tende a espaçar com o tempo, não a parar de uma vez.
  6. Como sei se o que estou sentindo já é depressão e não só tristeza pelo término?
    Observe se a dor está travando sua rotina básica, trabalho, alimentação, contato com pessoas, por semanas seguidas sem oscilação. Se sim, procure avaliação profissional em vez de tentar decidir sozinho.
  7. É normal ter recaída e voltar a falar com o ex mesmo tendo cortado contato?
    Sim, isso é comum e não anula o progresso anterior. O importante é retomar o corte, sem se punir pela recaída como se fosse um fracasso total do processo.
  8. Terapia realmente ajuda nesse momento ou só o tempo resolve?
    O tempo sozinho pode não resolver quando o processo trava, como mostra a diferença entre luto agudo e luto prolongado reconhecida pela CID-11. Terapia ajuda a destravar o que o tempo sozinho não resolveu.

Referências